Ele fazia muita merda na época que conheceu Renata. Com vinte anos, Sérgio não pensava muito antes de fazer as coisas. Roubava bebida do bar do amigo do pai. Brigava na rua. Fazia pega de carro. Mas um dia conheceu uma diaba boa de cama que fez ele querer ser santo.

 

Sérgio regenerado teve uma filhinha e tratou de arrumar um emprego com o melhor que sabia fazer, pilotar. Claro que não escolheu dirigir táxi. Escolheu coisa mais excitante, ambulância. Livre pra rodar a cidade em poucos minutos, se adaptou bem à carteira assinada. – O salário não é grande coisa, mas dá pra realizar quase todos os desejos do anjo que quer ter tudo de princesa.

 

Sérgio achava que as mulheres são todas como a mãe do Prince, when doves cry. Renata não era diferente. Reclamava tanto da falta de grana e de tempo, que Sérgio até pensou em voltar pros velhos tempos. Só parou com essas idéias de crime quando Renata engravidou novamente. Vendeu o Golzinho ferrado e tratou de comprar ninho novo, – Exigências, exigências…

 

A felicidade de Sérgio era tão aparente que chegava a parecer insulto tanto sorriso pra colocar os doentes com o pé na cova dentro da ambulância. Mas em casa as coisas foram ficando difíceis. A diaba que antes o levava ao bom inferno todos os dias, por algumas boas horas, agora só queria “viver de verdade” e não conseguia, estava condenada a uma vida sem emoção.

 

O último mês de gravidez de Renata assustou o pai feliz algumas vezes. Ela ficara com pressão alta, e a qualquer momento a criança ameaçava nascer e o que era pior, corria risco de vida. Sérgio ficava sempre tenso e atento ao celular, se tivesse que mudar o rumo da ambulância e deixar um paciente morrer pra salvar sua amada, deixava.

 

E foi no meio de uma noite que as contrações começaram. Sérgio não imaginava a falta que o Golzinho ferrado lhe faria. Correu em busca de um táxi com Renata ao lado passando mal e a pequena princesa semi acordada nos braços. Cada segundo levava anos pra passar. Não pensou duas vezes, com um arame que fazia de chaveiro, roubou um Golf. Cruzou carros e esquinas com liberdade e anos de experiência. Despistou polícia, não parou em sinal vermelho, andou na contra-mão. O vento no rosto aliviava a pressão de Renata.

 

– Papai, cuidado!

 

– Fica tranquila, filha. Papai é foda!

 

Chegaram ao Hospital, a bolsa rompeu. Sérgio não sabia se fazia o parto ou se corria. A princesa gritou. Um colega médico ajudou. E Renata satisfeita, pariu.

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