Tarcísio Meira estreia O CAMAREIRO no Oi Casa Grande para temporada de 3 semanas.

Por: João Luiz Azevedo
Camareiro_JulianaHilal-57-horzEstreia na 6ªf, dia 24 de junho, no Oi Casa Grande, o espetáculo O CAMAREIRO de Ronald Harwood, direção de Ulysses Cruz, com Tarcísio Meira, Kiko Mascarenhas, Lara Córdula, Karen Coelho, Silvio Matos, Licurgo Spinola, Analu Prates para temporada de apenas 3 semanas, até o dia 10 de julho, com apresentações de 5ªf a sábado as 21h e domingo 19h.
Em cena, Tarcísio Meira representando um velho ator shakespeariano e octogenário, esbraveja: “Eu não aguento mais vestir roupas que não são minhas. Mas este é o meu trabalho. Eu sou um ator”, “É mais fácil alcançar o sucesso do que mantê-lo” ou “Ninguém vai me dizer a hora de parar. Eu decido quando parar”.
Palavras que poderiam ser do próprio ator e não do seu personagem “Sir” e fico pensando, que outro ator brasileiro poderia interpretar tão bem esse personagem?
Com 80 anos bem vividos e 60 de carreira, muito sucesso na tv, teatro e cinema, o velho galã, mostra em entrevista abaixo o lado bom da vida e da profissão que escolheu e representa tão bem.
01 – Com que olhar você olha pra trás e vê esses 60 anos de carreira?
Eu não olho pra trás. Eu olho mais pra frente.
02 – Você ficou 20 anos sem pisar num palco…
São 20 anos sem pisar no palco, mas eu nunca deixei de fazer teatro, por que mesmo na televisão, fazendo televisão, eu encaro meus personagens, eu mostro meus personagens, com o mesmo amor, o mesmo empenho com que eu os faço no teatro.
03 – O que te atraiu nessa peça, O CAMAREIRO com a direção do Ulysses Cruz? Por que esse espetáculo?
Porque é um personagem tão bonito. Eu acho que é o personagem mais interessante, mais bonito, mais cativante, mais fascinante que fiz na minha vida.
04 – Que história é essa que te cativou tanto? 
É uma história muito próxima de nós atores. Ela conta um momento de uma coxia de teatro. De um teatro shakespeariano. São atores muito bons, muito famosos, que excursionam pela Inglaterra. E esse meu personagem está em um momento muito difícil. Ele está à beira de um colapso, então muitas verdades vem à tona e é muito bonito. É uma peça muito bonita. É fascinante fazer. Um grande prazer, uma grande alegria pra mim fazer esse espetáculo. O público gosta muito, se diverte, porque também é muito engraçada a peça. Eles se emocionam, se comovem e gostam muito do espetáculo.
05 – Você ganhou o prêmio Shell com esse espetáculo…
Ganhei alguns prêmios. E o Shell também que é muito expressivo.
06 – Esse espetáculo estreou em São Paulo e viajou por várias cidades do país. Como é a reação do público com essa peça?
Foi muito bom, o público gosta muito da peça.  Eu acho que quando as pessoas vão ao teatro, elas vão exatamente para brincar um pouco conosco; elas querem ver a trajetória daquele personagem, como ele começa, como ele anda e como ele acaba, por que lá, ele acaba. As pessoas se integram e entregam ao espetáculo. É muito bom, a gente sente a reação da plateia, os silêncios, aqueles silêncios, muito importantes, aquela tensão, aquela risada escancarada. Nós fazemos juntos o espetáculo, nós os atores no palco e o público na plateia.
07 – Você disse agora a pouco que nunca deixou de fazer teatro, por que a novela não deixa de ser um teatro também.
É um teatro popular.
08 – Mas teatro no palco mesmo, é teatro ao vivo. Essa adrenalina é boa?
É muito bom. Eu comecei a fazer televisão ao vivo, por que era ao vivo só, não havia o vídeo tape, depois veio o vídeo tape, depois veio o kill e tantas outras facilidades.
09 – São 80 anos de vida, 60 de carreira artística. São 20 anos longe dos palcos. Por que tanto tempo assim? 
Não sei bem porque, eu acho que talvez seja porque eu leve muito a sério a televisão. Me dediquei com muito afinco, muito empenho, muita dedicação a televisão, às novelas, minisséries, seriados.  Fiquei muito envolvido pela televisão. Minha mulher já não, a Gloria (Menezes), ela fez bastante teatro, muito mais do que eu.
10 – Estava com saudades do palco?
Estava sim, Eu comecei em teatro, em trabalhei em várias Cias de teatro, com o Sergio Cardoso, Antunes Filho, Selma Guerra, fiz muitas peças, antes de surgir esse teatro popular de boa qualidade que são as novelas.
11 – Em algum momento em sua carreira, ser rotulado de galã te incomodou?
Não se viesse com o sentido verdadeiro da palavra. Por que o galã era o ator que fazia o papel romântico, que são, as vezes, os papeis mais difíceis. Por que eles são despidos de características muito marcantes. O que eu não gostava é que as vezes o gala vinha eivado de uma certa maldade, um certo desprezo, como ser galã não fosse ser ator. O “João Coragem” que fiz em “Irmãos Coragem” (1970) foi um papel muito marcante. Foi a primeira novela que os homens viram. Até ali, quem via novela eram as mulheres. Era uma novela romântica, tinham todos os condimentos de uma novela mas também era uma novela de aventura. Eu sempre dei muita importância as novelas e continuo dando, por ser nacional.   É uma produção brasileira. Gostei muito de ter feito o Grande Sertão Veredas (1985), A Muralha (2000), o Capitão Rodrigo que fiz em “O Tempo e o Vento” (1985) eu tenho saudades até hoje. O Capitão Rodrigo é um personagem fantástico, que todos os homens gostariam de ser e todas as mulheres gostariam de ter.
12 – Fale sobre O CAMAREIRO.
É uma peça muito bonita que conta a história de personagens que transitam por esse espaço do teatro. São os bastidores do teatro: são atores, camareiro, contra regra, figurinista, são pessoas que transitam pelo palco e eu faço o ator, um ator muito famoso, muito bom, muito conhecido, eu faço o Sir, um ator shakespeariano.
13 – Por que tantos anos longe dos palcos? 
Eu tenho feito muitos seriados, filmes, novelas. E isso me afastou um pouco do teatro. Depois, teatro é algo que precisa ser feito com muito amor e satisfação. Fazer por fazer não interessa. É preciso encontrar um bom personagem, uma boa peça, o que nem sempre é fácil. Caso deste novo trabalho. Um espetáculo muito bonito, que apareceu na hora certa. Muito difícil, muito cansativo, mas um belo desafio.
14 – Devem ter surgido outras possibilidades de retorno. O que há de especial neste trabalho? 
Um espetáculo com uma teatralidade muito grande, uma certa mágica. Teatro sobre teatro. Falamos da relação com o público, das dificuldades de um ator em entrar em cena, das adversidades da jornada. Tudo levado aos palcos de uma forma muito especial e intensa. E há uma carga shakespeariana no enredo. E isso é muito bonito e não se encontra mais com facilidade.
15 – A peça acaba por celebrar seus 80 anos de vida e 60 de carreira… 
Foi uma coincidência. Eu teria feito ano passado ou ano que vem (risos). Na verdade, são quase 60 anos de carreira. Os 80 são feitos. A gente não pode passar por esses anos todos incólume. Temos que comemorar 80 anos, não? Embora eu não me sinta com 80 anos. Não me preocupo muito com isso não, mas sei que são anos pra caramba.
16 – E como o teatro aparece? 
Nunca pensei em ser ator. Meu pai foi quem me levou ao teatro pela primeira vez. Fui assistir à Bibi Ferreira em A moreninha. Adorei aquilo. Mas minha vinda ao teatro foi acidental. Fui convidado para fazer uma peça amadora. Ganhei prêmio na época e, então, fui chamado para fazer teatro profissional. Achei divertido, fiquei.
17 – Você começou sua carreira artistica em uma época em que o teatro era a principal fonte de renda. Eram seis, sete apresentações por semana. Hoje, o interesse do público parece menor, não?
Francamente, eu não sei. Como você lembrou, fiquei 20 anos longe do teatro. Fica difícil te precisar. Mas tenho a impressão de que o teatro mantém um público certo, fiel, que gosta dos palcos. Sei que as coisas mudaram, claro. Temos empresas, patrocínios, que facilitam a produção. O fato é que, hoje em dia, o ator que faz teatro também faz televisão, cinema, e isso inviabilizou um pouco a cena teatral. São poucos os que teriam disponibilidade para subir no palco todos os dias.
18 – E como Tarcísio Meira se relaciona com as redes sociais? 
Quer queira, quer não, eu sou uma pessoa pública. Não sei se me interessa mostrar minha intimidade, ou adentrar a intimidade alheia. Não sei se isso agradaria. Eu faço um uso tradicional da internet, para pesquisa e afins.
19 – Atores consagrados, da sua geração, andam esbarrando com personagens controversos, como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg… Aos 80 anos, com uma carreira consolidada, como encara esses desafios da profissão? 
Acho que isso é muito pessoal. Papéis são papéis. A maneira que você encara seus trabalhos, como eles aparecem para o público… Isso é de cada um. Para eu fazer alguma coisa, eu preciso acreditar nela. Se eu não acredito no personagem, como farei com que o público acredite? Minha orientação parte dessa premissa: da crença no trabalho. Se não for assim, não vale a pena.
20 – Você falou em ser uma pessoa pública. Muitos fazem uso dessa visibilidade para se posicionarem politicamente, socialmente… 
Isso é um problema de cada qual. Se a pessoa acredita que deva fazer isso, que faça. Eu, pessoalmente, acho que não devo e nunca fiz. Talvez, eu errasse fazendo. Como muitos colegas erram ao fazê-lo. Insistentemente, erram. Mas é um erro deles. Lamentável porque, por vezes, eles têm um poder de convencimento muito grande. Mas se agem com a convicção de que estão acertando, quem sou eu para impedi-los? Mas nem sempre eles acertam.
21 – Falando em acertar e errar, carrega algum arrependimento? 
Ter fumado muito em cena. Um péssimo exemplo que dei. Quando criança, olhava aqueles atores nos filmes fumando. Inclusive, passei a ter grande admiração por um deles. Um homem bonito, grande ator.
22 – Quem era? 
Humphrey Bogart. Um craque. Mas fumava… E, talvez, eu tenha começado a fumar por ali. Hoje, tenho a consciência de que muita gente pode ter me visto fumando na televisão, achou bacana e passou a fumar também. Se for o caso, não terá sido um bom serviço que prestei.
23 – Queria falar um pouco de Glória… Vocês são vistos como um exemplo de casal.
Não gostamos disso. Não queremos ser exemplo para ninguém. Simplesmente, aconteceu. Eu gosto da minha mulher, ela gosta de mim. Ponto final. Não há nada demais. Não há nada que nos diferencie das demais pessoas. Somos pessoas comuns, muito simples. Talvez, as pessoas sejam muito carinhosas conosco porque nos conhecem desde que nasceram. Uma vida inteira nos vendo. Acompanham nossas carreiras, nossos personagens. E somos muito gratos pelo carinho. Como dizem, “ninguém busca o fracasso. Todos buscamos o sucesso”. E o sucesso é esse retorno. É o que legitima nosso trabalho.
24 – Sente falta de um cotidiano mais calmo, de menos exposição? 
Às vezes, e somente às vezes, a gente quer um pouco de solidão, um recolhimento. Nem sempre isso é possível. O único lugar que tive a chance de me sentar em uma sarjeta com a Glória e ficar observando as pessoas foi na Rússia. Foi uma sensação muito gostosa poder observar, sem ser observado. Talvez, por isso, eu goste tanto do campo, de ir para o mato. Permite um contato com meus “eus” mais primitivos. Acho importante nos afastarmos de uma experiência racional e possibilitarmos algo mais sensorial. Aguçar os ouvidos e escutar as folhas se batendo. Estar próximo de si próprio. Ali, longe de tudo, me reequilibro.
25 – Eu imagino que quando se chega aos 80 anos de idade, se acumule muitas experiências, pessoais e profissionais. O que a vida te ensinou e que você possa passar pra gente, com 60 anos de carreira e 80 anos de idade?
A vida me ensinou a esperar com ansiedade o próximo trabalho.

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