“SONHO ALTEROSA”, novo espetáculo do coletivo Miúda!

“SONHO ALTEROSA”,  fecha o produtivo ano do grupo abordando o universo dos contos de fadas em tensionamento com a resistência da bicha efeminada. Sonho Alterosa5_por Francisco Costa


 

  • idealizado, dirigido e performado por Caio Riscado – um dos membros fundadores da Miúda – o espetáculo que estreia dia 28 de novembro ficará em cartaz no Reduto, em Botafogo, por três semanas.
  • o monólogo performativo é resultado de dois anos de pesquisas, práticas e teóricas, iniciadas no mestrado e continuadas no doutorado do artista-pesquisador.
  • o projeto tem ainda um forte desdobramento musical, com cinco letras composta por Caio Riscado, produzidas por Philippe Baptiste e gravadas por novas vozes da música brasileira como Juliana Linhares e Rafael Lorga (ambos da Pietá), Bel Baroni (Mohandas), Caio Prado e Tyaro Maia (Agytoê).

Sonho Alterosa4_por Francisco CostaCaracterizado por seu idealizador como uma investigação cênico-científica-performativa-bizarra, “Sonho Alterosa” é um acerto de contas com o passado, codificado no presente a partir de pesquisas acadêmicas e experiências performativas levadas à cabo por Caio Riscado nos últimos dois anos. O resultado de todo esse processo será apresentado a partir do dia 28 de novembro, ficando três semanas em cartaz, sempre aos sábados, domingos e segundas, no REDUTO, em Botafogo.

“Não sei se eu lembrei ou se eu inventei – e não definir isso é parte fundamental do projeto – que um dia sonhei que queria ser uma princesa” [Caio Riscado, sobre o nome da peça]

Influenciado e fascinado pelas figuras femininas apresentadas em filmes e desenhos como Cinderela, Branca de Neve, Corcunda de Notre-Dame, A Bela e a Fera, A Bela Adormecida, Caio Riscado iniciou uma pesquisa que lança um olhar para dentro, investigando sua homossexualidade, sua travestilidade infantil e o sonho de ser princesa, ao mesmo tempo em que se debruça sobre os valores morais e sociais embutidos nesses contos de fadas tão emblemáticos para milhões de crianças, chegando, a partir da constatação de que seu sonho é uma construção, ao conceito de uma princesa atual, urbana, violentada, masculina e feminina.

“Ser uma princesa hoje é tão importante quanto ser uma pessoa qualquer. Trata-se de erguer castelos internos, lutar pela riqueza de imaginário e defender os diferentes modos de ser e estar no mundo.” explica Caio, sobre a modificação que a ideia de princesa sofreu, desde sua infância. 

Ao se apresentar como uma princesa, o performer Caio Riscado desconstrói a ideia de “final feliz” padronizada pela grande mídia e faz as pazes com o seu sonho infantil. O passado é atualizado pela presença do artista que revisita criticamente as investidas homofóbicas que marcaram sua infância. Riscado recria o universo “Disney”, que tanto o influenciou na infância, a partir de suas angústias, seus desejos, seus traumas e de seu corpo. Acompanhado por Lucas Canavarro e Philippe Baptiste – que operam vídeo e som e são responsáveis, também, respectivamente, pela direção de vídeo e direção musical – Caio nos convida a conhecer seu mundo cor de rosa (a direção de arte  de Victor Hugo Mattos eleva isso à enésima potência), que é bem diferente daquele das princesas, príncipes, bruxas malvadas, fantasia e finais felizes.

DESDOBRAMENTOS MUSICAIS

O projeto também se desdobrou musicalmente. Caio Riscado escreveu cinco letras sobre o universo que permeia a peça, e que, sob produção de Philippe Baptiste e parceria com outros músicos, foram gravadas por artistas da cena contemporânea carioca como Juliana Linhares (Pietá), Bel Baroni (Mohandas), Tyaro Maia (Agytoê), Caio Prado e Rafael Lorga (Pietá). Tal desdobramento demonstra também a intenção do projeto de comunicar para além da sala de espetáculo, já que as faixas serão disponibilizadas gratuitamente pela internet.

PERFORMANCES

As performances apresentadas em diversos espaços, no Rio (Reduto, FITU – UniRio, Hélio Oiticica, Mostra Hífen -Teatro Dulcina, Sede das Cias e Martins Pena) e em outras cidades (Niterói e Curitiba) foram os pontos de partida que resultarão no espetáculo “Sonho Alterosa”, projeto que foi contemplado pelo edital de fomento à cultura carioca, na linha de cultura LGBT, da Secretaria Municipal de Cultura.

Uma das performances que fez parte do processo de Sonho Alterosa é a perfo*deboche audiovisual “Manoelcarlismos”, onde Caio ridiculariza o falso projeto de visibilidade e diversidade articulado pelas telenovelas brasileiras. É um chamado, um alerta para o tratamento dado às personagens sexodiversas na TV. O performer convidou Bernardo Lorga, também integrante da Miúda, para serem filmados se beijando em diversos pontos da cidade. No vídeo final, a trilha sonora é composta pelas mesmas músicas que marcaram grandes romances na teledramaturgia brasileira. Link para o vídeo:   https://goo.gl/apXFmO

Trans*corrimento Xoxotaço surgiu a partir de diálogos com a Professora Doutora Eleonora Fabião e consiste num striptease onde as peças retiradas são calcinhas velhas e sujas, doadas por parceiras de trabalho e de vida de Caio Riscado. A performance visa jogar luz sobre o ato subjetivo de tirar a calcinha, chamando a atenção, também, para a questão das mulheres não biológicas e da população sexo-diversa em geral.

MIÚDA

Atuante na cena artística carioca desde 2009, o núcleo de pesquisa continuada em artes Miúda vem ganhando espaço e reconhecimento nos últimos anos. Com uma metodologia de criação colaborativa e hierarquias flutuantes, o coletivo, em 2015, esteve em cartaz com a peça COUVE-FLOR (dirigido por Caio Riscado e criado em parceria com a dramaturga Rosyane Trotta e o coletivo BRECHA), PEQUENO QUADRO PÚBLICO (dirigido por Gunnar Borges), participou do projeto PERMANÊNCIAS E DESTRUIÇÕES (dirigido por Caio Riscado e Luar Maria), produziu e dirigiu três videoclipes (Mohandas – dir: Lucas Canavarro e Caio Riscado; e Brunno Monteiro – dir: Lucas Canavarro), lançou seu primeiro longa-metragem, “MAQUETE” (dirigido por Pedro Capello) além de ter criado espetáculo inédito para o projeto DANÇA GAMBOA (dirigido por Caio Riscado e Luar Maria, em parceria com a pesquisadora Thereza Rocha).

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