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Na prisão é assim, diversão é competir sofrimento. Quanto mais o cara sofreu na vida, mais digno ele é. O Farrinha é órfão de família inteira, gago e alérgico a camarão; quase sempre ganha de mim, mas eu tenho uma vantagem, minha mãe era hipocondríaca. Competição de sofrimento é coisa que eu entendo. Você pode perceber, se você convive com pobre, mais cedo ou mais tarde vai acabar tendo orgulho da sua dureza e fazendo questão de qualquer Real. É contagioso esse negócio de sofrer.

Uma das histórias mais tristes que me fez ganhar do Farrinha e garantir o encerramento do assunto, foi uma de quando eu era pequeno. Um dia eu perdi o dedo mindinho e por causa disso minha mãe passou a manter uma pedra enorme e pesada pra segurar a porta do vento. A gente era tão pobre tão pobre, que um dia a gente se mudou pra um lugar menor e ainda mais miserável só pra ficar perto de um lago sujo pra ter o que beber e onde tomar banho. A galera já estava com pena de mim e uivou de prazer quando eu disse que o novo morador da nossa casinha com pedra enorme pra segurar a porta, ficou milionário. A pesada continha um dos maiores diamantes já encontrados no Brasil.

Sempre contei história verdadeira. Tudo sempre me aconteceu, já fui corno, roubado, estuprado, atropelado, mendigo, tuberculoso, e sem querer já até saí pelado. Eu sou um derrotado. Estou aqui preso inocentemente. Tem muita gente que diz isso, eu sei. Mas o fato é que eu sou mesmo um coitado. Eu estava desempregado e sem ter onde cair morto, porque a patroa me enxotou pra fora de casa, e fui tomar só uma cachacinha no fiado, uma só, juro. Mas não resisti quando o Seu Manoel me ofereceu mais uma branquinha de graça em troca de um serviço.

Era só fazer uma entrega numa casa ali perto. Eu fui. Chegando lá, achei estranho, nunca vi tanto dinheiro. Cinco mesas cheia de dinheiro. Me deixaram entrar e ver tudo aquilo tenho certeza, só por causa dessa minha cara que você sabe como é. Entrei e ninguém ficou em alerta, quem ficou com medo fui eu. Entreguei as quentinhas pra um tal de Bolado. Eu quis muito perguntar pra ele que lugar era aquele, mas o codinome não era a toa, tremi. De repente ouvi um, – Mão na cabeça, deita no chão!

Era a polícia. Eu vi um cara correndo, aí eu corri também. E fui preso tentando fugir do flagrante. O lugar era uma espécie de tesouraria de jogo do bicho. Pois é, eu nem gosto daqui, mas eu não tenho pra onde ir, então prefiro ficar. E a galera gosta de mim. Só o Farrinha que não. Aliás, nem contei como ele foi preso. Por causa de ciúme da mulher. Matou a desgraçada. E eu estou contando tudo isso porque hoje ele conseguiu uma faca, se eu morrer você já sabe, ganhei.

 

 

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2 comentários

  1. Sylvia Regina Marin

    Hahaha! Aline, sua criatividade e seu senso de humor são admiráveis. É delicioso ler as coisas que você escreve, mesmo quando o assunto é “sofrimento”. Sou absolutamente sua fã.

    • Aline Rezende

      Que honra!