“Se eu fosse Iracema”

Inesquecível encontro no Sérgio Porto

5-se-eu-fosse-iracema_sesc-tijuca_foto-imatra-horz“A peça não tem a intenção de levantar uma bandeira e, sim, uma reflexão. Branco, mestiço, índio, ocidental. É possível coexistir? Abordando a questão indígena no Brasil, a montagem pretende examinar a questão da possibilidade de convivência das diferenças”. O trecho, extraído do release que me foi enviado, sintetiza a proposta de “Se eu fosse Iracema”, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto. Fernando Marques assina a dramaturgia, estando a direção a cargo de Fernando Nicolau. Adassa Martins dá vida ao monólogo.

Diante da crucial pergunta “é possível coexistir?”, a maioria das pessoas dirá que sim. No entanto, existe uma considerável diferença entre meramente aceitar alguém que não pensa como nós, que não é como nós, e efetivamente estabelecer com esse alguém uma real coexistência, ou seja, um existir junto.

No presente caso, o foco é a questão indígena. Em que medida ela nos preocupa, nos afeta, nos mobiliza? É claro que, quando nos deparamos com um caso como o do índio Galdino – queimado vivo em Brasília por um grupo de jovens brancos e bem-nascidos -, o horror nos invade. Mas imediatamente somos levados a crer que se trata de um caso isolado e que a exemplar punição desses jovens nos redime de qualquer responsabilidade. No entanto, e mesmo considerando a hipótese de que esses jovens padecessem de brutal psicopatia, a doença deles não exclui a nossa, em última instância muito mais grave: a indiferença.

Todos nós sabemos que os índios foram quase que dizimados pelos colonizadores; todos nós sabemos que, os que restaram, foram sendo aos poucos privados de suas terras; todos nós sabemos que os direitos básicos dos índios são sistematicamente desrespeitados. E, no entanto, a maioria de nós permanece calada, como se tais questões não tivessem a menor relevância. Mas por que agimos assim? Ou melhor, por que nos recusamos a gir? Dentre as muitas respostas possíveis, opto pela mais trágica: para a maioria de nós, o índio não existe.

Mas graças ao bom Deus, a todos os Pajés e aos Deuses do Teatro temos agora a possibilidade de dar início a um inadiável processo de redenção. Sim, pois “Se eu fosse Iracema” fustiga de tal forma nossa adormecida consciência que, após assistir ao espetáculo, certamente todos os espectadores passarão a olhar a questão indígena com outros olhos e, quem sabe, passarão da inércia à ação.
Neste sentido, me incluo entre os que, mesmo não sabendo exatamente como, passarão a agir.

Texto belíssimo, “Se eu fosse Iracema” começa com a figura de um pajé interpretando um texto em guarani, se não me engano inspirado em fala proferida pelo cacique Raoni. Em seguida, nos deparamos com um mulher embriagada que empreende desconexas reflexões sobre artigos da Constituição de 1988. Mais adiante, uma personagem, ao que parece inspirada na ministra Kátia Abreu, exibe uma ironia tão hedionda que a faria merecedora de umas belas chibatadas. E outros personagens surgem, os já citados retornam, todos contribuindo para nos possibilitar, ao menos em princípio, a possibilidade de não nos tornarmos órfãos de nós mesmos.

Quanto ao espetáculo, Fernando Nicolau impõe à cena uma dinâmica cujo cerne repousa no desconforto que provoca. Nada indaguei, evidentemente, dos demais espectadores, mas quanto a mim, devo confessar que a montagem me chegou, em todos os momentos, com a virulência das grandes tempestades. E mesmo que deslumbrado com a beleza e expressividade das marcações, com a maestria dos tempos rítmicos, com a originalidade das soluções, ao mesmo tempo me senti permanentemente incomodado, como se me estivessem sendo imputadas responsabilidades que até então fizera questão de negar. Sob todos os pontos de vista, um belíssimo e inesquecível encontro. Com o teatro e comigo mesmo.

Com relação a Adassa Martins, a atriz exibe aqui a melhor performance de sua carreira. Possuidora de ótima voz, irrepreensível trabalho corporal, forte presença cênica e inegável carisma, a intérprete também revela visceral capacidade de entrega, afora uma inteligência cênica que jamais a leva a adotar soluções previsíveis. Sem dúvida, estamos diante da mais instigante e poderosa performance da atual temporada.

Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo e irrestrito entusiasmo as maravilhosas contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral – Licurgo Caseira (iluminação e cenografia), Luiza Fradin (figurino e caracterização), João Schmid (trilha sonora original e desenho de som), Fernando Nicolau (direção de arte e projeto gráfico), Bruno Dante (escultura do busto) e João Julio Mello (fotografia).

SE EU FOSSE IRACEMA – Texto de Fernando Marques. Direção de Fernando Nicolau. Com Adassa Martins. Espaço Cultural Sergio Porto. Sexta, sábado e segunda, 20h. Domingo, 19h.

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