Redemunho – Fatalidade impregnada de trágico lirismo

Foto: Facebook

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“Em um tempo arcaico quase mitológico, quatro histórias se tocam no centro de um redemoinho de fatalidades. As histórias desenham destinos que não podem ser evitados, colocando suas personagens centrais no momento inexorável de sua caminhada em direção ao trágico”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o que há de mais essencial nos quatro contos do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, que integram o volume “Faca” (composto de onze narrativas), e cuja teatralização pode ser conferida na Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogério Cardoso). Anderson Aragon responde pela direção do espetáculo, que tem elenco formado por Alexandre Dantas, Ana Carbatti e Claudia Ventura.

Em um primeiro momento, pensei em resumir os enredos de “Redemunho”, “Cícera Candóia”, “Mentira de amor” e “A escolha”. Mas acabei optando por não fazê-lo, e não por preguiça – que fique bem claro -, mas por julgar que todas as histórias, ambientadas no sertão, possuem estreita relação com as tragédias gregas, ou seja, ninguém consegue escapar ao próprio destino e a fatalidade, quase sempre, tem sua origem no núcleo familiar.

Isto posto, cumpre ressaltar a beleza da escrita de Ronaldo Correia de Brito – impregnada de trágico lirismo -, a potência de seus personagens e a pertinência das questões abordadas, que abarcam paixões, perdas, sentimentos de vingança, impotência e revolta, dentre muitas outras. Tais virtudes são valorizadas de forma extremamente sensível por Anderson Aragon, que impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material que lhe deu origem.

Ainda assim, acredito que a opção do encenador de, na primeira parte da montagem, expor longos segmentos das quatro narrativas para, mais adiante, retomá-las de forma fragmentada, pode gerar uma certa dificuldade de apreensão por parte do espectador, que se vê obrigado a um permanente exercício de memória para se reconectar com as histórias várias vezes interrompidas e retomadas.

Com relação ao elenco, os três intérpretes exibem ótimas atuações, tanto no que diz respeito aos personagens que interpretam quanto nas passagens narradas, ao que parece mantidas praticamente na íntegra. A mesma eficiência se faz presente no irrepreensível trabalho de toda a equipe técnica – Alfredo Del-Penho (direção musical), Sueli Guerra (direção de movimento), Doris Rollemberg (cenografia), Flávio Souza (figurinos) e Anderson Ratto (iluminação).

REDEMUNHO – Texto de Ronaldo Correia de Brito. Direção de Anderson Aragon. Com Alexandre Dantas, Ana Carbatti e Claudia Ventura. Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogerio Cardoso). Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h.

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