Quatro Janelas

Anna Virgínia Lopes, Felipe Porto e Rogério Garcia

Companhia estreia com textos de Tennessee Williams

“Num universo conturbado de pessoas que vivem intensamente seus mundos pessoais, contamos quatro histórias, que se passam na mesma cidade, em tempos diferentes. Um jovem vai trabalhar como lanterninha num cinema decadente. Um adolescente é pressionado pela mãe a assumir responsabilidades como adulto. Um rapaz vive internado num hospital por ter insuficiência cardíaca. Um casal discute dentro de uma cabine de streap-tease. Numa atmosfera atemporal e brutal, urbana e caótica, o roteiro aponta quatro saídas inusitadas para o inferno do cotidiano”.

Extraídas (e levemente editadas) do release que me foi enviado, as informações acima sintetizam o contexto de “Quatro janelas para o paraíso” (Teatro Ipanema), que tem dramaturgia livremente inspirada em personagens e peças curtas de Tennessee Williams. Alexandre Mello responde pela adaptação e direção, estando o elenco formado por Alana Ferrigno, Anna Virgínia, Felipe Porto, Helio Barcia, Jojo Rodrigues, Lays Ariozi, Rogério Garcia, Pedro Lima e Yuri Farage. O espetáculo marca a estreia da Surreal Companhia de Teatro.

Nas quatro peças curtas selecionadas – “O grande jogo”, “Verão no lago”, “O quarto rosa” e “Esses são os degraus que você tem que cuidar” – estão presentes temas que o dramaturgo aprofundaria em seus textos mais alentados e de maior peso, tais como a solidão, o desencanto, a sensação de não pertencimento, o sentimento de derrota etc. Isso não significa que estejamos apenas diante de meros esboços, já que o material dramatúrgico não deixa de exibir qualidades.

No entanto, a edição feita por Alexandre Mello, que reduz o que já era curto e faz uma permanente alternância entre os textos, não permite à plateia se envolver mais visceralmente com as questões abordadas. Neste sentido, acredito que a exibição de uma peça de cada vez poderia ser mais eficaz, ainda que isso determinasse uma outra dinâmica cênica.

Seja como for, o diretor impõe à cena um desenho que, de uma maneira geral, possui inegável valor estético. Ainda assim, há uma passagem que resulta muito confusa. Refiro-me à cena em que um homem visita sua amante. No original, tudo se passa no quarto dela. Na montagem, a passagem se dá no mesmo espaço do cinema, que pertence a uma outra história – talvez esse impasse pudesse ter sido ao menos minimizado com um desenho de luz que restringisse ao máximo a área de atuação dos atores.

Com relação ao elenco, cumpre destacar a seriedade e emoção com que todos se entregam à tarefa de materializar personagens de difícil construção. E se o resultado é um tanto desigual – em especial no tocante à emissão vocal – há pelo menos uma performance que merece ser destacada: a de Jojo Rodrigues na pele da mãe do garoto que não parece disposto a se tornar um adulto. Conseguindo valorizar tanto o desespero afetivo da personagem como sua impotência em convencer o filho a mudar de atitude, a atriz revela um temperamento dramático a ser acompanhado com atenção em suas futuras performances.

Na equipe técnica, são de excelente qualidade a iluminação de Renato Machado – exceção feita à mencionada passagem envolvendo o homem e sua amante -, a cenografia de Alexandre Mello, os figurinos de Tiago Ribeiro e a trilha sonora cujo autor não posso citar porque seu nome não consta nem do release nem do programa oferecido ao público.

QUATRO JANELAS PARA O PARAÍSO – Textos de Tennessee Williams. Adaptação e direção de Alexandre Mello. Com a Surreal Companhia de Teatro. Teatro Ipanema. Sábado a segunda, 20h.

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