Há tempos que pensamentos angustiantes ocupavam sua mente, justamente na hora de dormir. Imaginava coisas que se mexiam, barulhos que vinham do corredor, discos voadores na janela. Larissa, desenvolveu uma estranha estratégia de burlar o medo. Precisava reproduzir o que ouvia ou via, na intenção de ameaçar aquilo que a ameaçava. Fazia desenhos, batia na parede, amassava sacolas plásticas, sussurrava, assoviava… Mas nem sempre conseguia a reprodução perfeita dos sons que ouvia, e isso a deixava louca de raiva e muito assustada.

 

Passou a trocar o dia pela noite, na vã tentativa de se sentir segura pela luz do sol. Deixou o seguro emprego numa estatal e foi trabalhar num Motel como atendente de telefone. Preferiu não ter folgas, era melhor assim. Os clientes eram muitos e pediam sempre as mesmas coisas, lençóis, travesseiros, ou pediam para repassar a ligação para o restaurante. A sua nova rotina lhe parecia muito segura, até perceber que um mesmo homem freqüentava o Motel quase que diariamente. Tinha um tom de voz grave, arrogante e um leve sotaque gaúcho que um dia a fez estremecer.

 

– Qual o seu nome, mocinha?

– Qual o seu nome , mocinha?

– … Oi?

– … Oi?

– Ba, tu vai repetir tudo que eu falar?

– Dá, quer dizer, Bá, tu vai repetir tudo que eu falar?

– Quem tá falando?

– Quem tá falando?

– A maritaca tem nome?

– A maritaca tem nome?

– Vai se fuder!

 

O gaúcho desligou o telefone, mas o medo era grande, precisou mandá-lo se fuder também, duas vezes. O telefone tocou novamente. Era ele.

 

– Eu preciso de um cobertor.

– Eu preciso de um cobertor.

– Olha aqui, mocinha, se você não mandar o cobertor pro meu quarto em 5 minutos, vou procurar o gerente!

– Olha aqui, mocinha, se você não mandar o cobertor pro meu quarto em 5 minutos, vou procurar o gerente!

– Maluca!

– Maluca!

 

A camareira demorou pra atender ao pedido de Larissa, e por isso decidiu levar o cobertor pro gaúcho. Trêmula, tocou a campainha. Tentou se lembrar de como se reza uma “Ave Maria” pra que o gaúcho não atendesse a porta. Não conseguiu chegar nem na terceira estrofe, misturou “Ave Maria” com “Pai Nosso”.

 

– Obrigado!

– Obrigado!

– Escuta, tem uma maluca atendendo o telefone na recepção.

– Escuta, tem uma maluca atendendo o telefone na recepção.

 

O gaúcho mostrou seu punhal, nunca fora tão desafiado. Ainda mais por uma mulher.

 

– Entra no quarto mocinha.

– Entra no quarto mocinha.

 

Larissa entrou.

 

– Tira a saia!

– Tira a saia!

 

Larissa não obedeceu, mas o gaúcho sim.

 

– Chupa!

– Chupa!

 

Larissa não obedeceu, mas o gaúcho sim. Larissa gozou e foi embora.

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