Deliciosa montagem no Net Rio

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Os que entendem da vida sustentam que, em tempos de crise, a criatividade aumenta. E é mesmo possível, ao menos se tomarmos como exemplo Jerry e Dave. Desempregados há meses, o primeiro correndo o risco de perder a guarda do filho e o segundo a atual esposa, ambos decidem dar a seguinte e inesperada guinada em suas vidas: formar uma trupe composta por homens igualmente desempregados para apresentar um show de streap-tease – a ideia surgiu após constatarem que as mulheres não hesitam em pagar um alto preço para desfrutar as delícias de um show dessa natureza. No entanto, será que a empreitada daria certo, já que protagonizada por homens comuns e possuidores de corpos isentos de sedutoras protuberâncias e instigantes concavidades?

Eis o enredo de “Ou tudo ou nada – O musical”, em cartaz no Teatro Net Rio. Primeira versão brasileira do musical americano “The Full Monty” (texto de Terrence McNally e música de David Yazbek) baseado no filme homônimo britânico, o espetáculo chega à cena com versão para o português assinada por Artur Xexéu e direção de Tadeu Aguiar. No elenco, Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes, André Dias, Victor Maia, Carlos Arruza, Sergio Menezes, Xande Valois, Patrícia França, Kacau Gomes, Sylvia Massari, Samantha Caracante, Carol Futuro, Sara Marques, Larissa Landin, Fabio Bianchini, Felipe Niemeyer e Gabriel Peregrino.

Os que entendem de teatro, seja qual for o gênero, sustentam ser imprescindível se partir de uma boa ideia. Embora não concorde com tal premissa (ou alguém acha que “Hamlet” parte de uma boa ideia?), no presente caso admito duas coisas. A primeira: a ideia é sensacional. A segunda: só mesmo um autor e um músico medíocres conseguiriam o prodígio de desfigurá-la.

Felizmente, McNally e Yazbeck materializaram uma obra irretocável – o texto, pleno de humor e humanidade, e de impressionante atualidade, cativa a plateia desde o início; e as belas canções são determinantes para a compreensão e evolução da trama, jamais surgindo como meros acessórios para atores/cantores exibirem seus dotes vocais. E, evidentemente, cabe ressaltar a excelente versão para o português feita por Artur Xexéu, a irretocável direção musical de Miguel Briamonte e a deliciosa encenação de Tadeu Aguiar.

Impondo à cena uma dinâmica ágil e criativa, irrepreensível no tocante aos tempos rítmicos e sempre atenta no sentido de valorizar ao máximo todos os diversificados conteúdos em jogo, tanto os mais dramáticos quanto aqueles em que o humor predomina, Tadeu Aguiar exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações de todo o elenco, seja no que se refere aos protagonistas, seja no que concerne aos que têm oportunidades menores.

E mesmo que alguns possuam vozes mais poderosas, aqui isso não é tão relevante, pois o que está em causa é um universo composto por pessoas comuns – ao menos para mim haveria de soar um tanto estranho se, por exemplo, lá pelas tantas uma atriz que faz uma participação menor emitisse agudos ou graves de uma Maria Callas…

Com relação à equipe técnica, considero irrepreensíveis as colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta divertida empreitada teatral – Edward Monteiro (cenografia), Ney Madeira e Dani Vidal (figurinos), Alan Rezende (coreografia), (David Bosboom e Dani Sanchez (desenho de luz), Gabriel D’Angelo e Bruno Pìnho (desenho de som), Harold Wheeler (orquestração), Ted Sperling (arranjos vocais e incidentais), Zane Mark (arranjos para músicas de dança) e Mirna Rubim (preparação vocal). Cabe também destacar a excelência dos músicos Miguel Briamonte e Daniel Sanches (piano), Josias Franco, Ricardo Hulck e Marco Moreira (sopros), Marcelo Rezende (guitarra), Leandro Vasques (baixo) e Tiago Calderano (bateria).

E, finalmente: ainda que não tenha particularizado nenhuma atuação por considerar excelentes todas elas (como já dito), faço absoluta questão de expressar meu total encantamento com a performance do menino Xande Valois que, além de exibir forte presença cênica e incrível charme, interpreta com extrema competência o difícil papel de Nathan, filho de Jerry.

OU TUDO OU NADA – O MUSICAL – Texto de Terrence McNally. Música de David Yazbek. Versão para o português de Artur Xexéu. Direção de Tadeu Aguiar. Com Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes e grande elenco. Teatro Net Rio. Quinta e sexta, 21h. Sábado às 18h e 21h30. Domingo, 19h.

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