Belíssimo casamento de dramaturgias

Os Sonhadores - Foto: Dalton Valério

Os Sonhadores – Foto: Dalton Valério

No início de 1968, Paris começa a ser sacudida por protestos, inicialmente pacíficos, decorrentes da decisão do governo francês de demitir Henri Langlois da direção da cinemateca. Mas no mês de maio tais protestos assumem imprevista dimensão, e o que parecia restrito ao âmbito cinematográfico passa a abarcar, dentre outras, reivindicações referentes às leis trabalhistas e ao universo escolar e acadêmico.

Ao mesmo tempo, os gêmeos de 19 anos Theo e Isabelle, aproveitando a ausência dos pais, convidam o estudante norte-americano Matthew, de 20 anos, que conheceram na cinemateca, para se hospedar com eles. Cinéfilos convictos, os três passam a testar seus conhecimentos sobre cinema, além de promoveram jogos sexuais e mentais com o objetivo de testar até que ponto cada um deles está disposto a avançar.

Eis, em resumo, o enredo de “Os sonhadores”, em cartaz no Oi Futuro de Ipanema. Baseado no romance “The dreamers”, do escocês Gilbert Adair, o texto tem dramaturgia assinada por Diogo Liberano, cabendo a direção do espetáculo a Vinicius Arneiro. No elenco, Bernardo Marinho (Matthew), Igor Angelkorte (Theo) e Juliana David (Isabelle).

Como se sabe, o romance de Gilbert Adair, lançado em 1988, gerou o belo e algo polêmico filme homônimo de Bernando Bertolucci, em 2003. E agora chegamos à sua transposição para o teatro. E da mesma forma que não caberiam comparações entre o romance e o filme, tão díspares são as linguagens, o mesmo se aplica a esta adaptação teatral. Resta apenas saber se o trabalho efetuado por Liberano, com a colaboração de Dominique Arantes, materializa as principais questões propostas pela obra literária. Em minha opinião sim, como se verá mais adiante. Mas antes me permito algumas considerações sobre o contexto em questão.

Um dos aspectos da obra que me parece extremamente interessante diz respeito à contradição de Theo. Se por um lado ele exibe um discurso revolucionário aparentemente irretocável, por outro, como observa Matthew, jamais se propõe a se juntar aos manifestantes nas turbulentas ruas. Ou seja: como acontece em todas as revoluções, há os que possuem uma inteligência privilegiada e se contentam em tecer conjecturas sobre os fatos, enquanto outros, tendo ou não uma inteligência privilegiada, assumem todos os riscos. Theo, portanto, padece da mais abjeta das alienações, pois sabe exatamente o que está ocorrendo e ao mesmo tempo não move uma palha para alterar uma realidade que supostamente execra.

Outra questão interessante diz respeito ao que acontece à medida em que aumentam as disputas entre Theo e Matthew pela atenção de Isabelle. Mais crucial do que as tensões que se acumulam é o progressivo descaso do trio pelo apartamento em que estão, que aos poucos vai se convertendo em um chiqueiro, potente metáfora da regressão moral e emocional dos jovens. E não custa nada recordar que a França só não se emporcalhou definitivamente graças à coragem, lucidez e determinação de uma juventude que exigiu inadiáveis reformas e foi capaz de contagiar praticamente todos os segmentos da sociedade.

Com relação ao trabalho de Diogo Liberano, acho impossível dissociá-lo do espetáculo – é até provável que texto e montagem tenham sido pensados simultaneamente. Sim, pois a dramaturgia propriamente dita está completamente atrelada à, digamos assim, dramaturgia das imagens e dos movimentos. E imagens e movimentos também surgem acopladas a uma incrível variedade de sons, tanto internos quanto vindos do exterior.

Assim, por achar completamente descabido fragmentar minha análise, parabenizo com o mesmo e irrestrito entusiasmo as criações de Liberano, do encenador Vinicius Arneiro e de Tato Taborda, este último responsável por uma das mais brilhantes direções musicais dos últimos anos. E o mesmo brilho se faz presente nas ótimas atuações de Bernardo Marinho, Igor Angelkorte e Juliana David, assim como nas preciosas colaborações de Aurora dos Campos (cenografia), Allan Ribeiro (direção de imagens), Graziela Bastos (figurinos) e Rodrigo Belay (iluminação).

OS SONHADORES – Dramaturgia de Diogo Liberano. Direção de Vinicius Arneiro. Com Bernardo Marinho, Igor Angelkorte e Juliana David. Oi Futuro de Ipanema. Quinta a domingo, 20h.

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