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Era um dia quente, quase verão, e este seria temível como o inferno, mas Clara estranhou quando o pai saiu sem paletó. – Anda me faltando o ar, filha.

A mãe fez salada pro almoço e Clara gostou da ideia, queria emagrecer. Aos 18 anos, o que mais faz uma menina além de estudar pro vestibular? Querer ficar linda. Mesmo que escondesse dos pais evangélicos sua predileção por chamar atenção, não conseguiria. E era estudando que conseguia a aprovação de conduta em casa.

 

Clara e a mãe de barriga vazia, fizeram uma limpa no armário. Parecia que diminuir as calorias ingeridas e o número de roupas, as fariam sentir algum frescor. Diante de duas sacolas grandes e cheias, foram até a Igreja limpar a alma só mais um pouquinho. O pastor ficou feliz com a doação, mas estranhou a presença de um paletó.

 

– Tem certeza, Dona Rosa? O seu esposo não vai achar ruim?

– Imagina! Esse paletó ele não gosta. Não usa há anos.

Leve, e sentindo-se tão boa quanto o que toda alma deveria ser, Dono Rosa não achou ruim em comer um docinho na padaria. E lá ouviu um boato da morte de um homem que jogava no bicho. Tratou de fazer críticas frias sobre o jogo do mal e citar a Bíblia.

 

Quando mãe e filha chegaram em casa com a gula satisfeita de sonhos e pão doce, amargaram diante da notícia de que Frederico havia sofrido um infarto e estava no hospital. Correram e lá o encontraram morto. Haveriam de providenciar o enterro, mas o médico lhes contou que o finado chegou a voltar do “túnel” só pra avisar sobre o paletó onde mantinha um tesouro, toda a sua sorte no jogo do bicho, depois se foi de vez.

 

Mãe e filha correram pra casa à procura do tal paletó. Não encontraram nada além de moedas. Clara correu à frente da mãe até a Igreja, já quase sem ar, gaguejou:

 

– Pastor, cadê o paletó do meu pai?

– Eu doei.

– Mas como você doou o paletó do meu pai?

Antes que ele respondesse, engatou na pergunta, – Pra quem? E lá se foi Clara e Dona Rosa atrás, correndo até a casa da Dona Palmirinha.

 

– Você também doou o paletó do meu pai, Dona Palmirinha?

– Doei, minha filha. O Nestor precisava ser enterrado decentemente, ele teve uma vida tão difícil.

– Você enterrou o paletó?

– O enterro vai acontecer agora, minha filha. Coitado, descansou!

Mãe e filha correram até o cemitério. Invadiram o vulto negro sem fôlego pra pedidos de licença. O caixão barato a meio quarto do chão por pouco não quebra diante do peso de Dona Rosa que se jogou no buraco do além à procura do tesouro. – Graças a Deus! A gorda quantia não era possível contar diante de tanta euforia e foi preciso descansar um pouco em cima do defunto. Os guardas a ajudaram a subir à terra. E de lá, Dona Rosa foi pra prisão.

 

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