Não é porque sou fotógrafa que gosto de lentes. Gosto de lentes, por isso sou fotógrafa. Dei pra alguns branquelos idiotas porque usavam óculos. Namorei um astrônomo. Moro no sétimo andar de fundos. Janelas pra todos os lados. Divertidíssimo. Morava um cineasta no sexto andar do prédio em frente que todos os dias filmava alguma bobagem pela janela.  Um dia preparei uma contra-luz vermelha com um ponto de luz azul numa lateral e me enquadrei em suas lentes, nua. Todas as noites diversificava cores e luzes.

Algumas semanas depois, pela lente do olho mágico da minha porta, vi o cineasta. Trouxera a câmera. Filmamos nosso primeiro encontro. Ao sair, percebi que esquecera um caderninho de anotações. Daqueles caríssimos que vendem nas livrarias. Caderninhos pra quem pensa que escreve melhor em folhas de papel a preço de ouro. Bisbilhotei eu confesso, usei lupa pra decifrar rabiscos em caneta preta. Li coisas como: aquela vadia, vou comer, mastigar, levarei faca, corda… Cruzes! Vi desenhos de uma mulher nua, pude reconhecer aqueles quadros no papel, tinham sido orquestrados por mim. O cineasta era um tarado perigoso. Me dei conta de como fui tola e que estava em perigo.

No dia seguinte, fui até a casa dele. Trepamos novamente. Mas não nos deixei filmar. Levei na bolsa uma arma. E claro, o caderninho metido a besta. Mandei que lesse as últimas palavras.

-Você está diante de uma assassina, o melhor que você tem a fazer é ajoelhar e rezar pra Santa Josefina.
Achei que fui engraçada, nao sei se por influencia do caderninho ou por ler muito Rubem Fonseca, sei que entendo de fotos e lentes e que fiz rima.

Saquei a arma. Mandei que virasse de costas, liguei o som bem alto. Matei o desgraçado de susto e saí sem que me visse.

No dia seguinte um delegado coxo, Alberto Luneta, exigiu meu depoimento.

-A senhora conheceu J. Ferreira?

-Não. Quem foi J. Ferreira? Um político?

-A senhora foi vista ontem saindo do apartamento desse homem (mostrou-me uma foto), o cineasta J. Ferreira. E não sabia seu nome?

-Não. O que aconteceu?

-Se suicidou. A senhora desconfiou do que iria se suceder?

-Não. (Me dei conta de que talvez a última frase daquele caderninho pudesse me encriminar).

-O que a senhora foi fazer lá?

-Transar.
-Com um homem que nem sabia o nome?

-Seu delegado, pra me levar pra cama, basta ter alguma lente. Binóculo, lentes de contato, microscópio…

O delegado desconfiava de que poderia ser um assassinato forjado de suicídio, mas depois dessa minha declaração, tratou de mostrar sua identidade e encerrar o caso.

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1 comentário

  1. Jesus

    Aline, você é linda. Te amo.