A vital relevância do caos

Julio Maciel, Teuda Bara, Paulo André, Lydia Del Picchia, Eduardo Moreira e Antonio Edson em Nós (Foto: Guto Muniz)

Julio Maciel, Teuda Bara, Paulo André, Lydia Del Picchia, Eduardo Moreira e Antonio Edson em Nós (Foto: Guto Muniz)

“Enquanto preparam a última sopa, sete pessoas partilham angústias, algumas esperanças e muitos nós. Gerada de um mergulho radical na experiência de mais de 30 anos do Galpão, a 23ª montagem da companhia debate questões atuais, como a violência, a intolerância, a convivência com a diferença, a partir de uma dimensão política”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a proposta do grupo Galpão em seu mais recente trabalho, em cartaz no Teatro Sesc Ginástico. Convidado pela companhia, Marcio Abreu assina a direção do espetáculo e também a dramaturgia, esta em parceria com Eduardo Moreira. No elenco, Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Teuda Bara.

Após a leitura do parágrafo inicial, dois pensamentos me ocorreram. O primeiro diz respeito a “enquanto preparam a última sopa”. Imediatamente me veio a imagem de “A última ceia”, afresco criado por Leonardo da Vinci para a igreja de seu protetor, o Duque Ludovivo Sforza. A cena retrata a última ceia de Jesus com os apóstolos, antes de ser preso e crucificado, de acordo com a Bíblia. Aqui Jesus não está presente, tampouco os apóstolos, mas a imagem de que a sopa em questão será a última sugere a iminência de uma ruptura, o que de fato quase se concretiza quando um dos integrantes do grupo é convidado a deixá-lo – inicialmente de forma educada, mas aos poucos com violência crescente.

O segundo pensamento prende-se à palavra nós. Ela tanto pode significar a primeira pessoa do plural quanto algo que pode ser desatado – o nó de uma gravata, por exemplo. Talvez o objetivo de “partilham muitos nós” seja o de explicitar que o grupo está vivendo conflitos que precisam ser resolvidos, posto que do contrário a convivência se tornará impossível. Mas “muitos nós” também pode significar a pluralidade de “eus” que todos contemos, sendo tal pluralidade o que confere ora beleza, ora tragicidade às relações humanas.

Seja como for, e ainda que os dois pensamentos que me ocorreram careçam de maior pertinência, o fato é que estamos diante de um texto de grande singularidade. A começar pela ausência de personagens – os atores não interpretam papéis, materializam as próprias personas. E os conflitos provêm das pressões exercidas pelo mundo sobre o grupo, acarretando proximidades e distanciamentos. Mas o texto deixa sempre implícita a possibilidade de convivência entre os contrários, desde que a tolerância seja considerada imprescindível para o entendimento entre os homens.

Com relação ao espetáculo, Marcio Abreu impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Há passagens em que o congraçamento é total – as ideias são formuladas com clareza, as reflexões soam pertinentes e a ocupação do espaço exibe coerência. Mas em outras a impressão que se tem é de que a desagregação total é iminente, pois nada do que é dito parece fazer sentido, ninguém se escuta e o caos se instala, física e emocionalmente. E é justamente nas passagens mais caóticas que o espetáculo adquire maior relevância, posto que propõe ao espectador uma relação que, por ignorar a razão, só pode existir se admitimos que o pandemônio cênico não deixa de espelhar, ao menos em alguma medida, nosso pandemônio interno. E se nos reconhecemos no outro, se com o outro nos sentimos irmanados, é possível que todas as distâncias possam ser aos poucos reduzidas. Já seria uma bela conquista para a espécie humana.

No que diz respeito ao elenco, composto não apenas por excelentes intérpretes, mas por intérpretes que refletem sobre sua arte e sobre o mundo em que vivem, nada me resta a não ser agradecer a dádiva que é poder assistir mais uma vez um espetáculo do Galpão, o mais importante grupo teatral deste país. E meu agradecimento, e encantamento, se estendem a todos os profissionais da equipe técnica, que muito colaboraram para o êxito incontestável de “Nós” – Marcelo Alvarenga (cenografia), Paulo André (figurino), Nadja Naira (iluminação), Felipe Storino (trilha e efeitos sonoros), Ernani Maletta (preparação musical e arranjos vocais/instrumentais), Babaya (preparação vocal e direção de texto) e Nadja Naira e João Santos (colaboração artística).

NÓS – Dramaturgia de Marcio Abreu e Eduardo Moreira. Direção de Marcio Abreu. Com o Grupo Galpão. Teatro Sesc Ginástico. Quarta a sábado, 19h. Domingo, 18h.

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