Nós não vamos desistir do Brasil

Postado por: Marcelo Moraes Caetano

        Há algumas semanas, meu querido amigo, o cineasta Marcelo Martins, enviou a mim e a outros escritores, intelectuais e artistas uma espécie de carta-manifesto, em que conclamava a quantos a lessem a dizerem o que achavam a respeito de um verdadeiro desafio contemporâneo: a revolução ocasionada não pelas guerras, pelos contraditórios e pelas durezas de coração, mas sim pela alegria. E mais: como o nosso país, o Brasil, poderia erguer-se como um verdadeiro representante dessa empreitada tão necessária no mundo em que vivemos.
            Lembro que na época estouravam aqui e ali constrangedores escândalos de corrupção, intolerâncias de todo tipo, divergências acentuadas, ódios acirrados, sequiosos desejos de vingança, despautérios políticos que de certa forma justificariam tais desejos injustificáveis de vingança… Até mesmo o clima brasileiro, reconhecido mundialmente por sua amenidade e doçura, parecia encrespado, rígido, ressequido, rude, animoso, violento, vingativo — um tipo de verão excepcionalmente tórrido se deitou sobre o território brasileiro, sufocando florestas, sugando rios e cravando marcas históricas de uma seca não registrada há muitas décadas.
            Tudo soava inconsolável. Com o próprio clima sinalizando desolação, onde buscar esperança?
            Mas havia uma razão muito sutil e delicada por trás dessa carta-manifesto que o amigo me convidou a engrossar, razão que, naquele momento, nem eu nem muitos dos brasileiros fomos capazes de enxergar, premidos pelas circunstâncias assustadoras que nos engolfavam. Como diria Blaise Pascal, talvez seja porque “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, e essas razões do coração, morada da alma para os gregos da Academia de Platão, afinal de contas vêm à luz mais cedo ou mais tarde.
            Não quero jorrar citações, mas muitos gênios solicitam que suas vozes sejam aqui ouvidas. Ocorreu-me, por exemplo, o aforismo de Nietzsche, que afirma que “não há fatos, apenas interpretações”. Nosso poeta, psicanalista e educador Rubem Alves sempre nos lembrava, no que ele chamou de “pedagogia do olhar”, da importância exatamente de educarmos nossos olhos, nossos sentidos, a fim de que possamos emprestar às “coisas” e aos “fatos” que acontecem significados reais, de beleza, aprendizado e sabedoria. Como não lembrar Shakespeare, que, na voz do soldado Marcelo, de Hamlet, nos dá a bela lição: “Nossos corpos são jardins; nossas vontades, jardineiros”.
E, por último, mas provavelmente porque as últimas coisas são frequentemente as mais importantes, recordo que Victor Hugo — o magnífico pai de Jean Valjean, Cosette, Fantine e de todos “os miseráveis” —, quando foi questionado por que se deveriam abolir e libertar os negros e escravos, respondeu de forma sucinta, exatamente porque ele era um Romântico com “R” maiúsculo: “É preciso libertar porque é preciso libertar.” Assim mesmo: seco como o verão atípico que marcou o ano 2015 no Brasil, revolucionário e esperançoso como todos os rostos aparentemente antagônicos que foram às ruas para “defender” ou “repelir” a corrupção desonrosa, sem frescuras como qualquer coração puro que não tolera apenas uma coisa — a intolerância gratuita e estúpida.
            Eu junto aqui todas as poucas citações que me ocorreram acima para, enfim, engrossar modestamente o que Marcelo Martins dizia: nosso Brasil possui um corpo que é verdadeiro jardim, cujos jardineiros somos nós, seu povo; somos um povo de coração generoso o suficiente para transpor dificuldades como a que atravessamos agora cheios de alegria e confiança; os “fatos” e as “coisas” que nos circundam, apesar de aparentemente secos e desoladores, contam com o olhar brasileiro, que é educado geneticamente a ver e interpretar o bem e a beleza onde outros não veriam senão a finitude e a aridez.
            Sabemos que o Brasil, assim como já aconteceu em outros tantos momentos da História, há de libertar exclusivamente porque é preciso libertar, ecoando o grito condoreiro de Victor Hugo e de nosso Castro Alves.
O mundo inteiro não está passando por uma era de mudança, mas sim por uma mudança de era. E, nessa mudança profunda, em que pessoas e natureza, razão e sensibilidade, conhecimento e intuição, intelectualidade e doçura são convidados a dançar harmonicamente, não tenho nenhuma dúvida de que será o Brasil que dará o tom e tocará a música que há de embalar com a alegria brasileira — força motriz de um povo que escolheu ser unido — o lindo Carnaval em que todas as pessoas são iguais, e em que eventuais e fortuitas diferenças e diversidades são antes complementares,  prestando-se ao serviço de incansáveis ajudas mútuas.
Temos, sim, o dom da alegria. E temos o dom do Romantismo, com “R” maiúsculo.

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3 comentários

  1. Rosália Venturelli

    Marcel,

    Parabéns!
    Muito sensata sua reflexão!
    Precisamos de artigos assim, pois somam na nossa vida e, isto faz toda a diferença!

  2. CCH

    Brasileiro é um povo de coração generoso, exceto nos casos dos que não têm coração – infelizmente, do Oiapoque ao Chuí; dos Palácios do Planalto às Choupanas das Planícies. Belo texto, bela crônica. Seguirei seu leitor! Amplexos!

  3. Klaus Schmidt

    Sensacional!!!! Um tipo de olhar que eu só compararia ao da Lia Luft!! Belo e sensível!!!!!