Enriquecedora e pertinente reflexão

Foto: Divulgação

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“A apresentação tem como ponto de partida a personagem Nora de “Casa de Bonecas”, peça do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Para compor a pesquisa cênica, a equipe do projeto foi às ruas do Rio de Janeiro para ouvir histórias reais de diferentes mulheres. Esse resultado é revelado no palco, numa pesquisa de linguagem de teatro documentário, onde a dramaturgia mistura ficção e fatos reais”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a proposta de “Nora”, em cartaz na Sede das Cias. Diana Herzog assina a direção e a dramaturgia, que reúne textos de Eleanor Marx, Israel Zangwill, Diana Herzog, Joana Lerner, Lilia Wodraschka, Priscila Assum, Natasha Melman e Renata Ravani. No elenco, Joana Lerner, Lilia Wodraschka, Priscila Assum, Natasha Melman e Renata Ravani.

Costuma-se dizer, e me parece incontestável, que o tempo passa muito rápido. Mas existem coisas que parece que não passam ou então que passam muito lentamente. Por exemplo: a crença de que a mulher nasceu para ser mãe e esposa. Isto nos leva à conclusão de que suas atribuições devem resumir-se a cuidar dos filhos, do marido e da casa. E e se além desses atributos cultivar um certo recato, aí estaríamos diante do máximo que se poderia esperar do sexo feminino.

Mas muitos dirão que as coisas não são mais como eram quando Ibsen escreveu “Casa de Bonecas”, em 1879, provocando escândalo por fazer a protagonista abandonar marido e filhos para cuidar da própria vida, assim afrontando o papel meramente decorativo que lhe estava reservado em uma sociedade machista. Sim, muitas coisas mudaram. Mas mudaram até que ponto? Será que o pensamento masculino, se abordado em sua essência, terá evoluído a ponto de considerar que homens e mulheres efetivamente se equivalem e que, portanto, possuem os mesmos direitos e assim devem manter uma relação de absoluto respeito mútuo? Em minha opinião, não. E por que não? Bem, para dizer tudo que penso haveria de extrapolar os limites de uma crítica teatral. Mas vamos lá, ainda que resumidamente.

Em termos físicos, os homens são mais fortes do que as mulheres. Mas isso os autorizaria a bater nelas? É claro que não. Mas os homens batem, e parece que batem cada vez mais. Em termos intelectuais, os homens são superiores? É evidente que não. Mas então por que, via de regra, os salários dos homens são superiores ao das mulheres?  Os homens se vestem como desejam, ou quando desejam circulam em trajes sumários, e isso parece absolutamente legítimo. No entanto, se uma mulher adota um procedimento análogo, passa a correr inúmeros riscos, sendo o mais brando o de ser difamada e o mais hediondo o de ser estuprada, cabendo ressaltar que pesquisas recentes revelam que uma porcentagem inacreditável de homens sustenta que “mulheres que se vestem de determinada maneira no fundo estão pedindo para serem estupradas”.

Peço desculpas pela um tanto extensa digressão, quando havia prometido o contrário. Voltemos, pois, à peça. Aqui tudo gira em torno do que se conhece da personagem Nora, do que pouco se conhece sobre uma versão alternativa feita por Ibsen para o final do texto (que, graças aos sempre sábios deuses do teatro, não vingou), dos depoimentos de 24 mulheres pertencentes a variadas classes sociais e dos depoimentos das atrizes. E o resultado, em minha opinião, ultrapassa as mais generosas expectativas, posto que oferece ao público uma sensível, oportuna e mais do que pertinente reflexão sobre a realidade da mulher nos tempos atuais.

Com relação ao espetáculo, este está em perfeita sintonia com o material dramatúrgico. Diana Herzog impõe à cena uma dinâmica criativa e imprevista, repleta de soluções que valorizam ao extremo os múltiplos conteúdos emocionais em jogo. E cabe também salientar sua atuação junto ao elenco, já que todas as atrizes exibem performances de grande expressividade. E por isso a todas parabenizo com grande entusiasmo, e a todas agradeço pela inquietante e enriquecedora noite que me proporcionaram – quanto a Joana Lerner, está ainda mais linda, posto que grávida.

Na equipe técnica, Duda Maia responde por excelente direção de movimento, a mesma excelência presente na iluminação de Luiz André Alvim, na trilha sonora de Isadora Medella, e na cenografia e figurino de Elisa Faulhaber. E, por último: não me perdoaria se deixasse de mencionar as encantadoras xícaras e não menos encantadores pires que adornam uma mesa no início do espetáculo – quanto ao não menos encantador bolo de chocolate que nos é oferecido, declinei da oferta por estar de regime, fato que amaldiçoei em consternado silêncio…

NORA – Dramaturgia e direção de Diana Herzog. Com Joana Lerner, Lilia Wodraschka, Priscila Assum, Natasha Melman e Renata Ravani. Sede das Cias. Sexta a domingo, 20h.

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