“Nada” – Belíssimo e original espetáculo

“Algo que acontece no fim de um espetáculo, inverte a situação e faz o público enxergar um teatro vazio, fechado e sem gente. O teatro é uma casa que vive de movimento. O foco da peça desloca-se da situação cômica de alguém que dá uma conferência sobre um tema que não entende nada, para se centrar na tragicomédia da existência de um homem”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima explicita o contexto em que se dá “Nada”, que tem por base dois textos de Anton Tchevov (1860-1904): “O canto do cisne” e “Malefícios do tabaco”. Mas além destes, são também apresentados fragmentos de “O jardim das cerejeiras”, “As três irmãs”, “Tio Vânia” e “A gaivota”, afora um breve momento do “Rei Lear”, de Shakespeare, e outro de “A dama da bergamota”, de Tennessee Williams (1911-1983). Em cartaz no Teatro Poeira, “Nada” tem dramaturgia e encenação assinadas por Gilberto Gawronski, estando o elenco formado por Analu Prestes, Clarice Derzié Luz e Renato Krueger.

Quando se inicia o espetáculo, um ator interpreta o monólogo “Malefícios do tabaco”, tendo a auxiliá-lo um outro, o Ponto. Em seguida, quando os espectadores já se retiraram, o mesmo ator que protagonizou “Malefícios” incorpora o principal intérprete de “O canto do cisne”, um ator de 78 anos que dedicou 55 anos de sua vida ao teatro – ele recorda sua vasta carreira com um misto de euforia e desencanto, também abordando temas como a velhice e a passagem do tempo. E aqui já temos algo de muito curioso no encadeamento dramatúrgico feito por Gawronski.

Em “Malefícios do tabaco”, o personagem Ponto não existe. Mas ao colocá-lo em cena, Gawronski não apenas reforça a patética comicidade do texto, mas também o utiliza como um elemento de ligação com o texto seguinte, “O canto do cisne”, quando aí sim o Ponto desempenha importante função, que consiste basicamente em valorizar os feitos do grande ator e assim impedi-lo de mergulhar em um estado depressivo. A partir daí, o espectador tem o privilégio de assistir a fragmentos dos quatro textos mais importantes de Tchecov, sempre encadeados de forma extremamente habilidosa. E tudo poderia se encerrar aqui. No entanto, mais surpresas estão reservadas.

Em dado momento, as atrizes, que até então interpretaram personagens masculinos e femininos, tornam-se elas mesmas. E sugerem não saber como continuar o espetáculo. O diretor, sentado próximo ao espaço da encenação, é convocado para encontrar uma solução para o impasse. Mas como não o faz e se retira, o operador de som ou de luz (um ator, naturalmente) entra em cena e, valendo-se de um texto de Tennesse Williams, “A dama da bergamota”, em que ele fala sobre Tchecov, assume o papel deste e profere belíssimas e pertinentes palavras sobre o fazer teatral. E ainda somos brindados com uma extraordinária fala do “Rei Lear”, de Shakespeare.

Diante do exposto, algum espectador poderia indagar: “Mas afinal, estamos assistindo a uma peça, no sentido convencional do termo? E sendo isto verdade, não seria suficiente a exibição, ainda que fragmentada, de trechos de peças consideradas obras-primas?”. Caso essa questão fosse formulada por alguém, e com todo o respeito que merece qualquer pessoa que expresse suas dúvidas com sinceridade, me permitiria dizer o que se segue.

Sim, bastaria a exibição dos mencionados fragmentos, no caso de ser apenas esta a proposta dramatúrgica. Ocorre, no entanto, que Gawronski objetivou algo além: mesclar personagens, pessoas e o próprio Teatro, que, em minha opinião, em última instância é o grande protagonista desta imperdível empreitada teatral. E se alguém, insatisfeito com esta sumária explicação, me exigisse outra mais abrangente ou mais profunda, haveria de sugerir que observasse com atenção sua própria vida: nela também não coabitam realidade e fantasia, e não raro de tal forma que não podem ser dissociadas? – caso a resposta deste interlocutor imaginário fosse negativa, só me restaria pedir a Deus que o protegesse de sua lamentável percepção da própria existência…

Com relação ao espetáculo, Gilberto Gawronski impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Valendo-se de marcas imprevistas e criativas, e exibindo notável domínio dos tempos rítmicos, o encenador exibe o mérito suplementar de haver extraído maravilhosas atuações de Analu Prestes e Clarice Derzié Luz. Possuidoras de vasta experiência, tecnicamente irrepreensíveis e dotadas de grande inteligência cênica, as atrizes estabelecem fortíssima contracena, só passível de acontecer quando intérpretes se respeitam e confiam inteiramente no projeto em que estão inseridos. Cabe também destacar a segura e apaixonada participação de Renato Krueger.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo a colaboração de todos os profissionais envolvidos nesta mais do que oportuna empreitada teatral, com especial destaque para os figurinos, que pertenceram à inesquecível Marília Pêra e foram doados a Gawronski com a seguinte recomendação: “Queria que isso não virasse museu, que servisse para vestir outros personagens”. Igualmente irretocáveis as projeções de Renato Krueger, também responsável pelo mais belo, poético e original projeto gráfico que me chegou às mãos em 28 anos de crítica teatral.

NADA – Dramaturgia e encenação de Gilberto Gawronski. Com Analu Prestes, Clarice Derzié Luz e Renato Krueger. Teatro Poeira. Terças e quarta, 21h.

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