Lúdica e sensual homenagem

mercedes-horzPrimeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Mercedes Baptista (1921-2014) teve uma vida plena de realizações. Conseguiu introduzir no currículo da escola de danças do referido teatro a disciplina Danças Afro-Brasileiras; contribuiu para a inserção do Teatro Experimental do Negro (criado por Abdias do Nascimento) no cenário cultural da época; introduziu a coreografia nos desfiles das Escolas de Samba; e, para não me estender em demasia, criou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista, o que possibilitou uma nova visão da dança afro-brasileira.

Artista fundamental na criação de uma identidade negra na dança brasileira, Mercedes Baptista ganha agora uma justíssima homenagem com o espetáculo “Mercedes”, em cartaz no Espaço Sesc. Cássio Duque e Sol Miranda respondem pela dramaturgia (com a colaboração do Grupo Emú), estando a direção a cargo de Juracy de Oliveira e Thiago Catarino. No elenco, Iléa Ferraz (Mercedes), Sol Miranda (Mercedes), Ariane Hime (Eros Volúsia e Katherine Dunham), Núbia Pimentel (Ignácia, mãe de Mercedes), Raphael Rodrigues (comadre de Ignácia), Drayson Menezes (Abdias do Nascimento) e Tuany Zanini (repórter e aluna de Mercedes).

Estruturado de forma a permitir vários encontros da personagem Mercedes em duas épocas diferentes de sua vida – uma Mercedes ainda bem jovem e outra em idade mais avançada -, o texto se vale deste recurso para, ao que me pareceu, possibilitar uma avaliação da trajetória da artista feita por ela mesma. Uma boa ideia, sem dúvida. No entanto, não consegui entender a razão que leva a Mercedes mais velha a exibir quase sempre um tom amargo, quase que impregnado de um sentimento de culpa, já que sua trajetória, apesar de todas as dificuldades, foi efetivamente luminosa.

Outra questão diz respeito a fatos importantes da caminhada da artista. Embora alguns deles não deixem de ser mencionados, acredito que a mera menção poderia ter sido substituída, ao menos eventualmente, por uma efetiva dramatização, o que conferiria maior interesse ao texto articulado. Ainda assim, cabe registrar que a dramaturgia apresenta momentos saborosos, especialmente aqueles em que o humor predomina.

Com relação ao espetáculo, Juracy de Oliveira e Thiago Catarino impõem à cena uma dinâmica plena de vigor e fantasia, em total sintonia com as belíssimas coreografias de Fábio Batista, também responsável pela irrepreensível direção de movimento. Dentro deste lúdico e sensual contexto, os atores exibem interpretações corretas no que tange ao texto articulado, e irrepreensíveis no tocante a tudo que expressam através da dança e do universo gestual. E no quesito dança, considero preciosas as participações de Renata Araújo, Canela Monteiro, Evandro Machado, Priscila Lúcia e Raphael Rodrigues.

No complemento da equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo as colaborações de João Paulo Alves e Reinaldo Junior (participação especial), Charles Nelson, Elton Sacramento e Fábio Batista (preparação corporal), Sérgio Pererê (direção musical), Kadú Monteiro e Sérgio Pererê (composição musical), Priscilla Lacerda (preparação vocal), Paulo César Medeiros (iluminação), Adriano Farias (cenografia) e Lucas Pereira (figurino), cabendo ainda destacar o ótimo nível dos músicos Richard Neves (piano), Frida Maurine (violino), Raquel terra (violoncelo) e Kaio Ventura (percussão).

MERCEDES – Texto de Cássio Duque e Sol Miranda. Direção de Juracy de Oliveira e Thiago Catarino. Com Iléa ferras, Sol Miranda e outros. Espaço Sesc. Quinta a sábado, 20h30. Domingo, 19h.

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