A massificação das artes plásticas e a legitimidade no mercado por Gabriela Fonseca

Ao observar o percurso da indústria cultural, desde muito cedo, pensadores como Adorno, Horkheimer e Benjamin afirmavam que, em um sistema capitalista, a obra de arte pode perder seus três elementos principais para ser considerada arte: originalidade, singularidade e transcendência. Benjamin fala da aura existente na obra de arte original, ligada a um ideal religioso, deteriorada pela reprodutibilidade técnica presente na indústria que transforma um objeto de culto em uma simples reprodução. A discussão entre profissionais e espectadores sobre quais são os parâmetros para qualificar uma produção como arte é uma discussão presente desde o início do reconhecimento da arte como arte, principalmente com a chegada da Arte Moderna, em 1922, e hoje, onde a reprodução em massa é frequente.

No Brasil, hoje em dia, temos exemplos dessa massificação em diversos locais, desde feiras e shoppings até o mercado online. Ao andar em locais como a Feira da Torre de TV, em Brasília, já é possível deparar-se com móveis estampados com a arte de Romero Britto, bolsas com o rosto da mexicana Frida Kahlo e com os artesãos que dispõe suas criações ali mesmo. Além do mais, devem ser citadas também as intervenções urbanas, como o grafitti. Com isso, podem ser feitos alguns questionamentos: a arte perde ou ganha com este tipo de produção? E no caso do artista plástico, ele continua fazendo arte?

São exemplos como esses que o indivíduo pode parar e refletir sobre diversas questões. Trazemos aqui uma roda de entrevista com artistas brasileiros, de diferentes gêneros e estilos. Até mesmo eles defendem que, mesmo sendo vendidas, suas obras devem ser exclusivas – uma forma de valorização do trabalho.

No entanto, tal exclusividade muitas vezes não alcança grande parte da população, fato que dificulta a difusão das obras e afasta o público do conhecimento.

A velocidade também é um fator a ser analisado, dentro de um sistema que influencia o indivíduo a ser consumista, sem pensar em sua aquisição, apenas em ter mais em menos tempo. E vale a condição do artista nesse cenário, buscando manter a sensibilidade artística e garantir seus ganhos materiais. Para compreender a complexidade da arte, é necessário muito estudo e exercício da democracia, visto que, além de conhecer a história, o artista exerce influência na sociedade e é reflexo desta.

Para discutir essa realidade sensibilidade X comércio no universo da produção artística, entrevistamos alguns artistas: Ronan Horta, pintor, músico e ator no Rio de Janeiro; Rafael Meggetto, pintor e galerista da Galeria Úmida, no Rio de Janeiro; Yong, grafiteiro em Brasília.


É correto afirmar que a arte se tornou um produto de consumo rápido?

Ronan Horta: Acho que depende do consumidor. A arte é muito livre, tem arte que é imediata, tem arte que se forma com o tempo, tem arte de todas as formas de tempo e espaço, atemporal ou apenas um flash.

Rafael Meggetto: A venda da arte, desde o princípio, passa por uma questão de impulso. A arte não é um produto de necessidade, como comida ou vestuário, é um produto muito mais abstrato, nesse contexto de venda. Ao meu ver, a venda da arte, seja ela qual for, passa muito por uma questão do impulso e da vontade da pessoa naquele momento. É muito comum termos uma pessoa muito interessada no quadro em um dia e, passado aquele momento, ela se desinteressa, e acabamos perdendo a venda.

Yong: Existem, sim, coisas feitas de forma “descartável”, sem preocupação com conceito, com um único objetivo de gerar lucro. Mas a arte em sua maioria continua buscando emocionar e tocar as pessoas. A arte ainda é misteriosa e complexa, e não só um produto.

A arte no mercado online ainda carrega sua originalidade?

Ronan: Se for em massa deixa de ser exclusivo, deixa de ser única e, no meu ponto de vista, originalidade vem junto com o inédito, único.

Rafael: Tem coisas que são interessantes observar, no mercado online. Depende do tipo de arte, tudo depende do tipo de arte. Existem vários artistas digitais, que trabalham com a plataforma digital, ou seja, a arte dele já começa a ser criada diretamente da máquina. Então já é um produto virtual, nesse caso, ela se mantém virtual e original.

Yong: Algumas peças sim, tanto que artistas já conceituados tem um mercado online também. E não só para a arte, hoje qualquer coisa está disponível na internet.

 

É possível tratar a arte com sua essência e, ainda assim, gerar lucros com ela?

Rafael: Quando o artista se preocupa em vender arte, é muito normal que ele perca a essência do trabalho dele, porque a preocupação dele está no mercado, e ele vai se adequar aos espaços que o mercado propicia, que nem sempre são os espaços que ele procura como artista. De certa forma, arte e mercado até se distanciam, mas o mercado acaba englobando tudo.

Yong: O lucro e retorno vem do empenho e dedicação, e a essência está no quão verdadeiro é o que você faz, se é o lifestyle do artista não é unicamente comercial, é algo natural.

A produção em série de obras, dentro de um sistema capitalista, consegue atingir o público com a mesma intensidade?

Ronan: O exclusivo sempre será exclusivo. Não sou contra venda em massa, mesmo porque, se está sendo vendida assim, é porque tem demanda, e o artista deve se encontrar seu lugar no mercado como ele quer se colocar. Isso não diminui ou exalta o mesmo, cada um decide como deve se posicionar. Afinal, a arte e o posicionamento são livres.

Rafael: A Monalisa, por exemplo, é uma obra muito reproduzida no mundo inteiro e, a força dela está justamente na história, por ser uma das obras mais antigas que temos, e por ser de um grande pintor. A obra é um marco, foi reproduzida, ela perdeu sua força? Não, a história da Monalisa tornou a obra mais poderosa do que a obra física. Então, vai ao inverso da questão.

Yong: Na verdade a produção em série torna a arte mais acessível, o que é positivo, pois vivemos um mundo que precisa de sensibilidade e sentimentos. E é isso que a arte traz.

 

Ter uma maior participação em eventos pagos, como customização em lojas e cenografia por exemplo, pode ser uma forma de colaborar com a aceitação do público da arte nas ruas?

Yong: Estar em eventos como estes aproxima o artista das pessoas, diminui a ignorância sobre o tema e gera admiração. Consequentemente, aumenta a aceitação.

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