MANIFESTO CONTRA A REDUÇÃO DO ENTRETENIMENTO A PASSATEMPO.
MANIFESTO CONTRA A REDUÇÃO DA INTELIGÊNCIA A IGNORÂNCIA DA IGNORÂNCIA A ESTUPIDIFICAÇÃO.
MANIFESTO CONTRA A REDUÇÃO

Há uma indústria do entretenimento que transforma qualquer coisa em nada. Que transforma qualquer obra de arte em banalidade. Que banaliza qualquer coisa. Que torna tudo que tem valor desimportante. Que usa a desculpa de que o público gosta da superficialidade. Vai ao teatro para passar o tempo. Que acha que o público vai ao Teatro para se divertir, muito bem, mas que se emocionar e refletir profundamente sua condição humana, não é divertimento. Pois vou lhes dizer, o que eles chamam de divertido e entretenimento, não me diverte nem entretêm. Me aborrece, entedia ao extremo, me obriga a passar o tempo de um espetáculo pensando em outra e qualquer coisa que não seja a peça que estou vendo. A indústria do Passatempo.

Ela acha que o público não gosta de pensar. Ela ganhou força e domina o cenário cultural do país. Como um vírus, foi se alastrando pelas casas de espetáculos, e se alojando, e expulsando as obras de arte dos espaços cênicos, com a aquiescência dos administradores e donos de Teatro que em geral nada entendem de arte. Foram se chegando aos poucos, sempre com uma mala de dinheiro ao invés de sonhos.

Uma gente que acha que o público só gosta de osso. “Quem resolveu que cachorro gosta de osso? Dá para o cachorro a opção de filé mignon, e vê lá se ele vai preferir o osso?”, exemplificava o que estou tentando dizer o mestre Suassuna. Esse pensamento do entretenimento – passatempo na verdade afasta o público, descaracteriza o Teatro e sua beleza de servir, dando uma falsa e perniciosa impressão de sucesso a quem faz (atores, diretores, produtores e patrocinadores). E, hoje em dia, com a prática, se tornaram produtos bem produzidos, bem atuados, que usam bons autores, muito bem-acabados, feitos para nada. E desperdiçam dinheiro, tempo, saúde, esforços e oportunidade que temos de nos encontrar e evoluir. Eu acho.

É como um filme que você esquece no momento seguinte que vê, uma comida bem-feitinha mas insossa, uma pintura decorativa, um beijo sem graça, se hospedar no Íbis. Produtos que só revelam o pensamento reducionista de quem usa a arte para esconder sua preguiça. Esse pensamento entretenimento passatempo hoje atinge não só aqueles autores contratados para escrever besteiras que eles “consideram” comerciais, como atinge também autores consagrados, usados para atrair o público, mas diminuídos, destituídos, mexidos levianamente, na direção de caber no orçamento, e na inteligência de quem faz. E é assim que que você recebe Brecht, Tchekhov, e David Mamet, Tennessee Williams, reduzidos a condição de mero passatempos. E pensar que aquele quadro pendurado atrás da cama de um hotel está tirando o lugar de um quadro bacana de um artista.

Que aquele quadro poderia ser uma obra de arte, e ajudar a sustentar e estimular o pintor a novas obras, e me entreter, e me dar prazer de me hospedar lá. Mas ao contrário, o que está lá, é o quadro mais baratinho mesmo, escolhido só para enfeitar. Mas não enfeita. E é capaz de não me deixar dormir de tão nada, de tão revelador da estupidez e ignorância de quem a comprou e pendurou ali. Nada pode entreter mais um ser humano do que uma obra de arte. Está provado. Veja há quantos anos estamos nos entretendo com o Édipo, com Rodin, com da Vinci, Michelangelo, Shakespeare, Dostoiévski, Chico e Caetano.

Antigamente eu achava que tudo bem, tem lugar pra todos, que importante que houvesse todo tipo de entretenimento em cartaz, que tem lugar pra todo mundo, hoje não acho mais, acho que temos que entrar em campanha ferrenha contra essa gente que usa o espaço artístico para banaliza-lo e expor com orgulho e vaidade sua própria mediocridade, que usa o espaço do sagrado para fazer comercio e emburrecer a população, exploradores do Teatro. Um palco vazio é como uma folha em branco, nele você pode escrever escrever escrever, e não falar nada.

Temos mesmo que expulsá-los de lá, desmoralizá-los, expô-los em praça pública, até que se mudem e vão se instalar em outro lugar, até que mudem de profissão. Como diz Lispector sobre a raiva necessária, “ a raiva me envivece toda”. E é assim que me sinto. Com raiva.

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