Like a Rolling Stone,

2565869-101544-rolling_stones_617_409

– Brigadão, galera!

Felizão por ser visto e aplaudido, Jorge ia embora do Karaokê. Jamais voltava pra sua mesa e jamais olhava pro público quando descia do palco. Seu trajeto até a saída era calculado. Pegava a carteira, abria, pegava a comanda, pegava notas de dinheiro, fechava a carteira, furava a fila, dizia “Oi” pra Juliana do caixa, pagava a comanda de consumação, deixava um trocado pra moça, dizia:

– Brigadão, Ju!

E toda quarta-feira ficava um pouco mais famoso. Lá era conhecido e adorado, bem diferente do verdadeiro Jorge da Silva, o discreto matador. Despencava de Nova Iguaçu pra frequentar o bar em Botafogo na estampa fina. Aquecia a voz uivando como um lobo, a gracinha que fazia no palco era imitada por mais de cinquenta pessoas. O coro que antecedia alguma música dos Rolling Stones era de arrepiar, já avisava aos novatos que ele era o melhor do noite.

Sempre pensou diferente dos colegas, sempre agiu como “maluco” segundo os outros, mas tinha orgulho de se considerar sensato e bom. Porque as pessoas matam o tempo todo e ninguém percebe, pensava. As pessoas matam no trânsito, quando aceleram o carro pro outro se fuder; as pessoas matam na escola, quando xingam ou não escolhem o gordinho pro time de futebol; as pessoas matam no trabalho, quando atendem demoradamente o cliente. Ele não, matava logo de uma vez.

Era contratado por questões de vingança, pra matar gente que pedia pra morrer, e assim também foi a última vez. As vítimas seriam um marido traíra e sua amante. Entrou pela janela da casa, nem foi difícil, ao lado tinha uma árvore com um galho que fez de ponte. Percebeu que o casal estava na atividade, sexual, nem notaram sua presença. Resolveu esperar um pouco, nunca gostou de coito interrompido, e como ele era um bom sujeito…

O problema foi que o marido dava no coro. Demorou duas horas pra chegar lá. E Jorge que acabara de se descobrir um voyer, esqueceu de ponderar os problemas que isso lhe causaria. Esperou a moça entrar no banho, precisava fazer um de cada vez. O marido deitou de barriga pra cima, melhor assim. Jorge abriu a bolsa térmica e pra sua surpresa as armas, que antes eram lanças pontudas e cristalinas, se tornaram pedaços de gelo inúteis com as pontas arredondadas.

Seu método genial e singular de matar sem deixar rastros não ajudou nesse momento, e o jeito foi improvisar. Diante daquele marido nu, e da possibilidade de ser visto ao sair por onde entrou. Jorge teve a ideia de usar uma das armas de gelo como um microfone e escolheu seu hit favorito. Uivou, cantou e levou um tiro no peito, calando pra sempre aquela voz que imitava Mick Jagger como ninguém.

Deixe uma resposta

3 comentários

  1. Sylvia Regina Marin

    Aline Rezende é uma das escritoras mais criativas que já conheci. Texto sempre delicioso e surpreendente. Demais! amei!

  2. Catarina Cunha

    Adoro surpresas! São tão raras! Grata!

    • Aline Rezende

      Obrigada!!!!! 🙂