Estrutura narrativa compromete oportunas reflexões

Ambientada em Brasília, toda a ação decorre de um fato singular: políticos corruptos estão sendo assassinados. Em vias de se aposentar, um oficial é encarregado do caso. E à medida em que nele se aprofunda, descobre que os mortos, além de terem em comum a volúpia da corrupção, frequentam um bordel chamado O Colégio. Afora isto, o dito investigador se apaixona perdidamente por uma prostituta cega, que atende pelo curioso nome de Justa, e sobre quem acabam recaindo as maiores suspeitas.

Eis, em resumo, o enredo de “Justa”, definida pela produção como uma Peça-Manifesto. Em cartaz no Teatro III do CCBB, o texto de Newton Moreno chega à cena com direção de Carlos Gradim, estando o elenco formado por Rodolfo Vaz (Investigador) e Yara de Novaes, que interpreta não apenas a já mencionada Justa, mas também outras prostitutas.

Autor de textos belíssimos, dentre eles “Agreste”, “As centenárias” e “Maria do Caritó”, aqui Newton Moreno não materializa seu enorme e incontestável talento. E por algumas razões, que explicito em seguida, sendo a primeira delas a estrutura narrativa adotada.

Já desde o início torna-se evidente que tudo já aconteceu, ou seja, o Investigador relembra o que viveu, pensou e sentiu. Mas a todo momento o passado é materializado na cena, e essa permanente alternância entre reflexões e fatos vividos, que logo torna-se previsível, não me permitiu um maior envolvimento com os conteúdos propostos. E quanto a estes, também algumas dúvidas me ocorreram.

Tudo me leva a crer que Newton Mendonça, ainda que priorizando uma narrativa que remete à de romances policiais, objetivou explicitar sua abjeção com relação à corrupção que assola nosso país. E a ninguém ocorreria questionar a legitimidade de seu objetivo. No entanto, este acaba sendo muito minimizado pela paixão desvairada que o narrador sente por Justa, sem que para a mesma eu tenha encontrado uma justificativa ao menos razoável. Além disso, excessivas passagens têm como foco a dita paixão, o que só contribui para desviar a atenção do espectador daquilo que seria ou parecia ser o essencial.

Com relação ao espetáculo, o diretor Carlos Gradim valoriza ao máximo a ótima cenografia de André Cortez, composta basicamente por uma grande mesa e por telas que exibem genitálias e atos sexuais, afora frases de protesto – estas últimas justificariam a proposta “manifesto” do texto, posto que confrontam a hipócrita moralidade das classes dominantes e o conservadorismo que nos ameaça cada vez mais, inclusive com a possibilidade de voltarmos ao negro período da censura. Em contrapartida, não consegui entender os movimentos coreográficos executados por Yara de Novaes ao longo do espetáculo, que me pareceram totalmente aleatórios.

No tocante ao elenco, e mesmo que tendo que dar vida a um personagem extremamente ingrato em função da estrutura narrativa já mencionada, ainda assim Rodolfo Vaz demonstra uma vez mais o excelente ator que é. Quanto a Yara de Novaes, esta tem oportunidades infinitamente mais ricas, pois a ela cabe materializar muitos personagens, a todos eles impondo características diversas através da utilização de precisas variações vocais e corporais.

No complemento da ficha técnica, Telma Fernandes realiza um ótimo trabalho de iluminação, valendo-se de focos de pouca intensidade que reforçam a escuridão que se abateu sobre nosso país. Quanto aos figurinos de Fábio Namatame, o do Investigador é simples e adequado, mas o traje usado por Yara de Novaes, ao longo de todo o espetáculo, remete ao de um mergulhador, por razões que não consegui compreender – pode ser que a intenção tenha sido a de sugerir, ainda que metaforicamente, que os personagens vividos pela atriz são os quemergulham mais profundamente nas questões abordadas, mas ainda assim me pareceu estranho. Morris Picciotto responde por sensível direção musical.

JUSTA – Texto de Newton Moreno. Direção de Carlos Gradim. Com Yara de Novaes e Rodolfo Vaz. Teatro III do CCBB. Quarta a domingo, 19h.

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