“GOTA D’ÁGUA – (A SECO)”

Emocionante adaptação de obra-prima

gota_dagua-01732-horzEstrelada por Bibi Ferreira e Roberto Bonfim, que dividiam a cena com mais 13 profissionais, o musical “Gota d’água” (Chico Buarque e Paulo Pontes) estreou em 1975 no Teatro Tereza Rachel, tornando-se um marco do teatro brasileiro. Agora, no mesmo espaço, rebatizado de Teatro Net Rio, uma nova versão pode ser vista, centrada apenas nos protagonistas Joana e Jasão, interpretados por Laila Garin e Alejandro Claveaux. Rafael Gomes responde pela adaptação (excelente) e direção do espetáculo.

Embora muitos personagens tenham sido abolidos, o essencial da trama (baseada na tragédia grega “Medéia”, de Eurípedes) permanece intacta. Inicialmente casado com Joana, com quem teve dois filhos, o sambista Jasão inicia uma relação com Alma, filha de um poderoso empresário artístico (Creonte).

A partir daí, desencadeiam-se vários conflitos, a começar pelo desespero de Joana ao se ver trocada por uma mulher inexpressiva, sendo tal troca movida apenas pela ambição de Jasão de ascender artística e socialmente. Tal desespero se torna avassalador quando Joana, após inúmeras e infrutíferas tentativas de reconquistar Jasão, é informada por este que será despejada da casa onde mora, de propriedade de Creonte. O motivo: não estar mais conseguindo pagar o aluguel. Sem ter para onde ir, totalmente desprovida de dinheiro e de qualquer perspectiva, ela toma a trágica decisão de matar os filhos e se suicidar.

Escrito em versos, o belíssimo texto expõe, de forma magistral, não apenas o desespero de uma mulher abandonada, mas também toda a crueldade inerente a um sistema perverso, que coloca os menos afortunados inteiramente à mercê dos que detêm o poder – e todos sabemos que os poderosos agem movidos pela ganância, carecem de qualquer consciência social e desconhecem por completo o sentido da palavra misericórdia. Creonte não faz o que faz por ser um homem mau. Tal adjetivação soa imprópria quando aplicada a um capitalista, ou seja, a alguém inteiramente destituído de humanidade e que só consegue existir em função do lucro. Na inexistência do mesmo, tudo então passa a ser permitido. Simples assim. Trágico assim.

Com relação ao espetáculo, Rafael Gomes impõe à cena uma dinâmica cujo maior mérito reside no fato de que todas as emoções se materializam através de uma fisicalidade de imensa expressividade. Afora isto, cabe destacar a criatividade de muitas soluções, como a transformação de um tonel de plástico em ampulheta e a belíssima passagem em que Joana morre, desvencilhando-se da enorme saia que usava, que é suspensa como se sua alma, tão exausta e maltratada, aos céus se dirigisse em busca do merecido repouso.

No tocante ao elenco, Alejandro Claveaux canta muito bem e exibe ótimo trabalho corporal. Afora isto, creio que adotou uma linha irretocável para Jasão, renunciando a compor um malandro seguro e excessivamente sedutor – se assim agisse, privaria o personagem de sua fragilidade, ainda que camuflada, que é o que desperta o forte instinto maternal e protetor de Joana. Um belo e inteligente trabalho, sob todos os pontos de vista.

Quanto a Laila Garin, a atriz sempre me passa a sensação de que cada apresentação merece ser encarada como a última. É tão visceral a sua capacidade de entrega que sou levado a acreditar que a eficácia com que profere as palavras e a expressividade que impõe aos gestos não advêm de seu arcabouço técnico, mas de suas entranhas. E se a isto somarmos sua extraordinária capacidade no que se refere ao canto, uma única conclusão se torna possível: estamos diante de uma intérprete completa e assisti-la constitui um privilégio ao qual ninguém pode se furtar.

Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as preciosas colaborações de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral –  Pedro Luís (direção musical), André Cortez (cenografia), Wagner Antônio (iluminação), Kika Lopes (figurinos), Marcelo Rodolfo e Adriana Piccolo (preparação e arranjos vocais), Pedro Luís e os músicos Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira (arranjos) e Rose Verçosa (visagismo).

GOTA D’ÁGUA (A SECO) – Texto de Chico Buarque e Paulo Pontes. Adaptação e direção de Rafael Gomes. Com Laila Garin e Alejandro Claveaux. Teatro Net Rio. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.

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