“Gata em teto de zinco quente”

Sensível versão de obra-prima

"Gata em Telhado De Zinco Quente" - foto: Ronaldo Gutierrez

“Gata em Telhado De Zinco Quente” – foto: Ronaldo Gutierrez

“A peça narra a celebração do aniversário de 65 anos de Paizão, um rico patriarca de uma família sulista americana. Ele recebe, ao lado de Mãezona, a visita dos filhos Brick e Gooper, acompanhados de suas respectivas esposas, Maggie e Mae. Paizão ignora que tem um câncer terminal. Gooper e Mae tem cinco filhos, esperam o sexto e cobiçam os milhões de Paizão. Brick, alcoólatra e ex-astro de futebol americano, vive um casamento infeliz e sem filhos com a frustrada Maggie, que o ama mas não é correspondida. Num dia de calor intenso, a ambição pela herança de Paizão deflagra conflitos de forma inesperada e implacável. Intimidades são dissecadas e expostas de forma devastadora, numa explosão de revelações pessoais e familiares”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de “Gata em teto de zinco quente”, de Tennessee Williams, em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil. Mais recente produção do Grupo Tapa, a montagem leva a assinatura de Eduardo Tolentino de Araujo, estando o elenco formado por Bárbara Paz (Maggie), Augusto Zacchi (Brick), Fernanda Viacava (Mae), Noemi Marinho (Mãezona), André Garolli (Gooper) e Zécarlos Machado (Paizão).

Segundo Nelson Rodrigues, “tem um momento em que toda família começa a apodrecer”. Aqui, no entanto, a impressão que se tem é de que a família retratada por Tennessee Williams (e aqui incluo as noras) já nasceu podre – ou ao menos apodreceu com notável rapidez. Senão, vejamos.

Paizão despreza por completo Mãezona, que absorve suas ofensas – e jamais as contesta – com suspeita passividade. Gooper e Mae não passam de dois idiotas que produzem filhos com uma constância digna de um desvairado casal de coelhos. Brick, que no passado viveu uma relação homossexual latente com um amigo, mergulha em profunda depressão quando ele confessa sua paixão e mais adiante se suicida. A partir daí, Brick se torna alcoólatra e não mais se relaciona sexualmente com Maggie, aparentemente por não perdoá-la por ter feito sexo com o tal amigo. Quanto a Maggie, esta se empenha desesperadamente para reconquistar o marido, lançando mão de uma infinidade de argumentos e também de uma permanente tentativa de seduzi-lo.

Estamos, portanto, diante de um quadro familiar devastado e que nos é revelado magistralmente pelo autor na comemoração de um aniversário, data em geral festiva e, mesmo quando não muito festiva, normalmente é isenta de revelações trágicas ou embates que podem ser adiados. Mas em “Gata em teto de zinco quente” nada é ocultado ou adiado, e o resultado é uma dramaturgia de primeira linha – diálogos brilhantes, personagens impecavelmente estruturados e reflexões da mais alta pertinência sobre todos os temas abordados.

Quanto à montagem, Eduardo Tolentino de Araujo impõe à cena uma dinâmica cuja expressividade decorre de marcações em total sintonia com as emoções em causa – ou seja, o diretor em nenhum momento evidencia qualquer preocupação em ser ou parecer inventivo, o que em textos como este constitui uma verdadeira benção, pois o que realmente importa (ou o que mais importa) é o dilacerado e feroz embate entre os personagens.

Na pele de Maggie, Bárbara Paz evidencia uma vez mais ser uma das melhores atrizes de sua geração. Possuidora de ótima voz, forte presença cênica e notável expressividade corporal, a atriz consegue valorizar ao máximo tanto o desespero de uma mulher rejeitada quanto sua paixão pelo homem que a rejeita. Augusto Zacchi modula muito bem a trajetória de Brick, que vai da mais absoluta indiferença até a visceral exposição de tudo que o atormenta. Fernanda Viacava e André Garolli encarnam com competência o casal Mae e Gooper, mas acredito que a mesquinhez e crueldade de ambos (sobretudo no final) poderiam ser trabalhadas de forma ainda mais incisiva. Noemi Marinho (Mãezona) convence plenamente vivendo uma personagem que, por astúcia e interesse, muito mais do que por amor, aceita ser constantemente humilhada.

Finalmente, Zécarlos Machado (Paizão) exibe uma de suas melhores performances no teatro, cabendo ressaltar sua capacidade de materializar tanto a prepotência do personagem quanto seu amor por Brick, dolorosamente revelado na bela e longa passagem em que tenta ajudá-lo a superar o lamentável estado em que se encontra. Outro momento maravilhoso do ator ocorre quando fica sabendo que padece de um tumor irreversível: após se desestabilizar momentaneamente, o personagem passa a encarar a morte com o mesmo destemor com que encarara sua vida. Sem dúvida, um trabalho brilhante e inesquecível.

Com relação à equipe técnica, Augusto Cesar responde por impecável e fluente tradução. Gloria Kalil assina ótimos figurinos, em total sintonia com o contexto e as personalidades retratadas. Nelson Ferreira ilumina a cena com sobriedade. Quanto ao cenário de Ana Mara Abreu e Alexandre Toro, é interessante a ideia de fazer de algodão (foi o que me pareceu) tanto a cama quanto o sofá, já que algodão é o que produz a fazenda de Paizão. Mas as passagens que se abrem e fecham, ainda que produzam efeitos interessantes, não solucionam o espaço atrás das mesmas, que deveria sugerir uma varanda e não raro dá a sensação de que os atores foram surpreendidos em locais aonde não deveriam estar.

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE – Texto de Tennessee Williams. Direção de Eduardo Tolentino de Araujo. Com Bárbara Paz, Augusto Zacchi, Fernanda Viacava, Noemi Marinho, André Garolli e Zécarlos Machado. Teatro I do CCBB. Quarta a domingo às 19h.

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