Inesquecível encontro no Sesc

Foto: Arthur Vianna

Foto: Arthur Vianna

Como se define um gênio? Tal definição é possível? Certamente muitos tentaram, mas creio que ninguém foi tão objetivo e perspicaz quanto Harold Bloom em seu livro “Gênio”, no qual analisa a produção literária, poética e dramatúrgica daqueles que considera os 100 autores mais criativos da história da literatura. Diz ele o seguinte: “Ele ou ela alarga a nossa consciência? E como isso se dá? Sugiro um teste simples, mas eficaz: fora o aspecto do entretenimento, a minha conscientização foi aguçada? Expandiu-se a minha consciência, tornou-se mais esclarecida? Se não, deparei-me com talento, e não com gênio. Aquilo que há de melhor e de primordial em mim não terá sido tocado”.

Antonin Artaud (1896-1948) e Vincent Van Gogh (1853-1890) não constam da relação de Bloom, já que o primeiro não produziu obra ficcional e sim ensaística, e o segundo era pintor. Mas não creio que a genialidade de ambos possa ser questionada, assim como seu evidenteparentesco: os dois foram vítimas de crudelíssimo e permanente processo de exclusão na época em que viveram, certamente porque expuseram as chagas mais pútridas de uma sociedade que pretendia deter o monopólio de todas as virtudes.

Tendo como ponto de partida o ensaio escrito por Artaud , em 1947 – “Van Gogh – O suicidado da Sociedade”, o presente texto, “Entre corvos”, leva a assinatura de Ary Coslov e Marcelo Aquino, que nele incluíram citações de Alfred Jarry, Arthur Adamov, Samuel Beckett, Edgar Allan Poe e Franz Kafka, dentre outros. Em cartaz na Sala Mezanino do Espaço Sesc, o espetáculo tem direção de Coslov e interpretação de Aquino.

“Um ator se prepara para interpretar Artaud no teatro, mas ele já não consegue distinguir os limites entre arte e vida, realidade e ficção, insanidade e razão”. Esta breve sinopse, extraída do ótimo release que me foi enviado, sintetiza a premissa essencial do texto e do espetáculo: propor ao espectador uma momentânea renúncia a tudo que considera indiscutível e que passe a encarar a dúvida não como algo inevitavelmente atrelado à angústia, mas como uma real possibilidade de transformação.

O não saber, no presente caso, constitui o ponto de partida para o verdadeiro conhecimento, que nada tem a ver com a tácita aceitação de conceitos e normas estabelecidas, mas que advém de uma necessidade interna que precisa ser honestamente conhecida e inevitavelmente saciada. Assim, quem se dispuser a entrar no jogo proposto pelo texto e pelo espetáculo haverá de deixar o teatro como eu o deixei: profundamente agradecido pela possibilidade que me foi ofertada de alargar minha consciência a respeito do mundo e de mim mesmo.

Texto belíssimo, “Entre corvos” recebeu esplêndida versão cênica de Ary Coslov. Impondo à montagem uma dinâmica em total sintonia com os conteúdos propostos, impregnada de uma fisicalidade dilacerada e intempestiva, repleta de soluções da mais alta expressividade, ao encenador cabe o mérito suplementar de haver extraído deslumbrante atuação de Marcelo Aquino. Este, na melhor performance de sua carreira, exibe não apenas preciosos recursos técnicos, mas uma capacidade de entrega tão visceral que o torna digno de encarnar um homem que da vida só conheceu o seu lado mais amargo.

Na equipe técnica, Aurélio de Simoni assina uma das melhores iluminações de sua esplendorosa carreira, sempre sublinhando e reforçando, com imensa sensibilidade, todas as emoções em causa. Ana Vitória responde por uma das direções de movimento mais expressivas que já assisti – é incrível a capacidade da coreógrafa e bailarina de converter em gestos e movimentos o que se passa na atormentada alma do protagonista. Sem dúvida, um trabalho inesquecível. A mesma eficiência se faz presente nas contribuições de Igor Verde (vídeomaker), Ary Coslov (trilha sonora, cenário e figurino), Gabriel Fomm (mixagem da trilha e sonoplastia) e Alexandre da Silva Mattos e Emanuel Isaías Perez Barroso (animações). E finalmente, um aplauso entusiasmado para a precisão e sintonia de Anderson Peixoto (operação de luz) e Gabriel Lessa (operação de som e projeção).

ENTRE CORVOS – Dramaturgia de Ary Coslov e Marcelo Aquino. Direção de Ary Coslov. Atuação de Marcelo Aquino. Sala Mezanino do Espaço Sesc. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 20h.

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