Dilacerada abordagem sobre as relações afetivas

Elisa Mendes: Divulgação

Elisa Mendes: Divulgação

“Dois performers em cena. São atores que interpretam atores. Não há enredo, trama, arco dramático, antes ou depois do ato, o que há é o instante da cena, a intensidade do momento em que estes dois personagens travam um embate, um conflito incontornável que marca o fim de um projeto de relação criativa e amorosa idealizado por ambos”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza a circunstância cênica em que se dá “Encerramento do amor”, primeira das duas peças de Pascal Rambert em cartaz na Sala Mezanino do Espaço Sesc. A outra, exibida em sequência – “O começo do A.” – mostra o encontro dos dois personagens, quando iniciaram uma relação afetiva e de trabalho. Mas as considerações que se seguem dizem respeito apenas à primeira peça. Luiz Felipe Reis responde pela direção, adaptação e concepção sonora e visual dos dois textos, interpretados por Julia Lund e Otto Jr. Trata-se da mais nova empreitada da Polifônica Cia.

“Encerramento do amor” exibe uma curiosa estrutura. Os personagens não travam nenhum diálogo – no sentido convencional do termo. O homem fala durante 40 minutos, consumidos em dilaceradas considerações sobre o amor, a arte, a aparente impossibilidade de existir uma relação afetiva que atenda às burguesas expectativas de que dure para sempre, dentre outros temas.

Durante esses 40 minutos, a mulher apenas escuta e suas eventuais e discretas reações corporais são imediatamente questionadas pelo homem – “não chora”, “levanta a cabeça”, “endireita a coluna”. A todos esses questionamentos a mulher obedece, sugerindo submissão e concordância.

No entanto, em seguida o jogo se inverte e é ela quem fala durante um tempo equivalente. E valendo-se igualmente de um discurso dilacerado, ainda que impregnado de amarga ironia, ela rebate todos os argumentos do homem e também questiona suas reações corporais – “não chora”, “levanta a cabeça”, “endireita a coluna”. A todos esses questionamentos, o homem obedece, como ela fizera pouco antes.

Diante de um tal quadro, só me restam conjecturas. Se por um lado é evidente que se o autor quisesse criar uma cena convencional em que um casal discute seu relacionamento, certamente que ele o faria. E então os personagens se interromperiam, talvez chegassem até a se agredir fisicamente etc. No entanto, ele faz a opção de discursos isolados, em que um dos personagens fala e o outro apenas escuta. Por que será?

Não sei exatamente o que Pascal Rambert pretendeu. Mas imagino que, sendo ele francês, e portanto fascinado pela lógica, pela filosofia, pelo pensamento articulado, pela beleza e alcance poético da linguagem, dentre outras características, talvez tudo isso e mais alguma coisa o tenha feito optar por uma estrutura que não interferisse na apreensão de suas ideias a respeito dos temas abordados.

Ou seja: na ausência de presumíveis bate-bocas, tudo que um personagem diz é escutado pelo outro, e obviamente que pela plateia. Mas será que não estaríamos diante de uma opção por demais cerebral? Talvez sim. De qualquer forma, as questões levantadas pelo autor são tão pertinentes e sua escrita é tão bela que o espetáculo mantém o espectador – ou, ao menos, manteve a mim – em um estado de permanente tensão e expectativa.

Tais predicados, obviamente, também devem ser creditados ao diretor Luiz Felipe Reis. Não tanto pela dinâmica cênica, bastante simples e despojada, ainda que não isenta de expressividade, mas sobretudo por sua excelente atuação junto ao elenco. Otto Jr., como de hábito, entrega-se visceralmente ao personagem, extraindo de cada momento o seu máximo potencial – não por acaso o considero um dos melhores atores de sua geração. Quanto a Julia Lund, esta exibe aqui a melhor performance de sua carreira. Possuidora de bela voz, esmerado trabalho corporal e detentora de uma inteligência cênica que a leva sempre a optar por escolhas instigantes, a atriz nos brinda com uma das mais potentes atuações da atual temporada.

Na equipe técnica, parabenizo com o mesmo entusiasmo as excelentes contribuições de todos os profissionais envolvidos neta instigante e oportuna empreitada teatral – José Dias (cenografia), Tomás Ribas (iluminação), Antonio Guedes (figurino), Lu Brites (direção de movimento) e Marcus Vinicius Borja, responsável pela magnífica tradução.

ENCERRAMENTO DO AMOR – Texto de Pascal Rambert. Direção de Luiz Felipe Reis. Com Julia Lund e Otto Jr. Sala Mezanino do Espaço Sesc. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h.

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