Depois da Terceira Onda

Oportuna reflexão sobre o Brasil atual

(Foto: Divulgação/Paula Kossatz)

(Foto: Divulgação/Paula Kossatz)

Na primavera de 1967, em Palo Alto, Califórnia (EUA), o professor Ron Jones propôs à sua turma de ensino médio uma curiosa experiência. Durante uma semana, ao invés de apenas discutirem o tema Autocracia, professor e alunos tentariam recriar o ambiente nazi-fascista da Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, os alunos foram induzidos a chamar Jones de Senhor Jones; mais adiante, aceitaram que as cadeiras fossem dispostas arbitrariamente; em seguida, não criaram objeção para o uso de uniformes e assim por diante. E pouco a pouco, para a surpresa de Jones, o rendimento escolar melhorou e todos (exceção feita a um único aluno) se mostraram perfeitamente adaptados a um regime em que alguém ditava ordens e todos obedeciam, com o coletivo se sobrepondo totalmente ao indivíduo.

Eis, em resumo, o contexto em que se dá “Depois da Terceira Onda”, mais recente espetáculo da Abrupta Cia. de Teatro, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal. Inspirado no documentário “Lesson Plan – A História da Terceira Onda”, no filme alemão “A Onda” e em depoimentos do professor Ron Jones, o espetáculo tem dramaturgia e direção assinadas por Jarbas Albuquerque, estando o elenco formado por Adriana Perin, Daniel Bouzas, Henrique Guimarães, Ignácio Aldunate, Lu Lopes, Maíra Kestenberg e Samuel Vieira.

Tratados já foram escritos pelos mais renomados estudiosos do comportamento humano sobre as razões que teriam levado o povo alemão a aderir fervorosamente à ideologia nazista. Dentre as mais recorrentes alegações estão a perda da Primeira Guerra Mundial, a suposta humilhação imposta pelos vencedores e a terrível recessão que tomou conta do país.

Tudo isso pode ser verdade, mas não creio que explique totalmente o fato de uma das nações mais cultas do mundo ter se transformado em uma celeiro de fanáticos, dispostos a apoiar incondicionalmente um regime que preconizava a supremacia da raça ariana sobre todas as demais e que, em função desta supremacia, poderia dar-se ao luxo de simplesmente exterminar quem bem entendesse, em especial as minorias – judeus, ciganos e homossexuais, dentre outras.

Assim sendo, o que de fato teria levado o povo alemão a uma tal barbárie? Obviamente que não sei a resposta, mas me atrevo a supor que uma das razões possa ser a mesma – guardadas as devidas proporções – que transformou os alunos em seres robotizados e totalmente dispostos a seguir as orientações de um líder: a necessidade de ordem. E por ordem entenda-se um contexto que, mesmo tornando obrigatória a anulação das individualidades, em contrapartida facultaria a segurança no grupo e a identificação coletiva, o que teoricamente eliminaria as angústias pessoais e qualquer possibilidade de solidão – trata-se, naturalmente, apenas de uma hipótese e, como tal, sujeita a todos os enganos. Mas voltemos à peça.

Qual seria a validade de se encenar hoje, no Brasil, um texto como “Depois da Terceira Onda”?. Estaríamos na iminência de viver novamente o horror de uma ditadura militar? Creio que não. No entanto, as condições são muito favoráveis para o surgimento de alguém que, honestamente ou movido por impulsos espúrios, apregoe a necessidade imperiosa de se dar início a algumas mudanças que todos desejamos, tais como o fim da corrupção, das balas perdidas, dos estupros, de um sistema educacional e de saúde totalmente deficientes e assim por diante.

Pois bem: e se essa pessoa surgir e nos convencer de que precisamos agir, independentemente das leis que nos regem? Hesitaremos ou partiremos para ações efetivas, certamente que amparados por pessoas que também já estão fartas e pensam como aquele que passou a nos liderar? O caos se instalaria? As instituições sofreriam profundo abalo? E aqueles que não concordassem, seriam respeitados? Ou simplesmente eliminados, posto que haveriam de constituir um entrave para a consumação de uma nova realidade?. E de que lado ficaríamos?

Em meu entendimento, o maior mérito do presente texto é o de nos alertar no tocante à possibilidade de aparecer em nosso país alguém que, não pedagogicamente, como o citado professor, mas a sério, nos convença de que precisamos nos reeducar, e que essa reeducação pressupõe a anulação de nossas individualidades e nossa total adesão a um sistema que, ainda que prescindindo de nosso pensamento próprio, em contrapartida haverá de nos proporcionar uma segurança em tudo semelhante à dos grandes cardumes e das grandes manadas.

Com relação ao espetáculo, Jarbas Albuquerque impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico. Valendo-se de marcas diversificadas e não raro muito expressivas, e de um ritmo sempre em consonância com as emoções em causa, o diretor exibe o mérito suplementar de haver extraído seguras e sensíveis atuações de todo o elenco, que sugere total compreensão de todos os conteúdos implícitos.

A mesma eficiência se faz presente nas colaborações de toda a equipe técnica – Paula Barbosa (direção de movimento), Gregório Rosenbusch e Mariana Meneguetti (cenografia), Henrique Guimarães (figurinos), Federico Puppi (trilha sonora original) e Elisa Tandeta (iluminação). Com relação à iluminação, na noite em que assisti o espetáculo ocorreram alguns problemas técnicos, logo solucionados. E ainda que não tenham sido totalmente solucionados, para mim ficou evidente a qualidade da luz. E, não custa nada lembrar, o grande encanto do teatro e o grande desafio do mesmo é que tudo sempre pode dar errado. Mas o fundamental, como de fato aconteceu, é assumir o erro e tentar remediá-lo, às claras e sem nenhum disfarce. Parabéns, portanto, ao grupo por sua honestidade.

DEPOIS DA TERCEIRA ONDA – Dramaturgia e direção de Jarbas Albuquerque. Com a Abrupta Cia. de Teatro. Centro Cultural Justiça Federal. Quartas e quintas, 19h.

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