“Decadência”

Paralelo entre classes com humor cáustico

FOTO: PAULA KOSSATZ

“Esta montagem é um novo desafio, não tem nada a ver com a anterior. Depois de 17 anos, eu sou outro, e o Brasil é outro. E como este trabalho é muito em cima do ator, mudaram os atores, mudou tudo. Além disso, o fato de encenar numa arena afasta qualquer lembrança da outra montagem. Para mim é um processo muito rico – uma peça física, como o trabalho de Berkoff, mas também com muita ênfase no texto”.

O trecho acima, que consta do release que me foi enviado e é de autoria do diretor Victor Garcia Peralta, faz um oportuno alerta com relação a qualquer tentativa de se estabelecer comparações com a montagem anterior, que muito apreciei e cuja crítica publiquei no jornal Tribuna da Imprensa em janeiro de 2000.

De fato, comparações desta natureza são sempre perigosas, posto que pressupõem um inadequado imobilismo tanto de quem faz como de quem assiste. Assim, o que virá mais adiante refere-se apenas ao que senti ontem, e não às impressões que tive 17 anos atrás. Em cartaz na Arena do Espaço Sesc, “Decadência” é agora interpretada por Eron Cordeiro e Aline Fanju – a montagem anterior era protagonizada por Beth Goulart e Guilherme Leme.

“George e Martha formam um casal de amantes da classe alta. Em contraponto, há outro casal de amantes: a mulher de George, rica e retraída, e um detetive. Ambos os casais nutrem ressentimentos recíprocos e frustrações pessoais. O primeiro casal, retrato de uma aristocracia enfastiada, se dedica a gastar todo o seu tempo e dinheiro em noitadas regadas a sexo, bebidas caras, jantares e óperas, alienados de tudo ao redor. O segundo casal, rancoroso e invejoso, vive a maldizer a vida fácil e abastada do outro. Traída, a mulher de George tenta, na cama, convencer o detetive a matar seu marido”. Esta é a sinopse do texto, também extraída do ótimo release que me foi enviado.

Como em todo texto, este permite diversificadas interpretações. Em meu entendimento, Berkoff objetivou empreender uma ácida e não raro hilariante crítica tanto à aristocracia como aos, digamos, menos favorecidos pela origem e fortuna. Se é verdade (ao menos na visão do autor) que a alta burguesia consome seu tempo com desregramentos e futilidades, era de se esperar que aqueles que não pertencem a esta classe cultivassem valores mais positivos. No entanto, ocorre justamente o oposto: privilegiam a inveja e o rancor, como a sugerir que adorariam estar em uma posição que jamais atingirão. Isto posto, caberia a pergunta: segundo Berkoff, seriam todos, em última instância, muito parecidos, tendo a diferenciá-los apenas a origem e conta bancária?

Com relação à montagem, Victor Garcia Peralta impõe à cena uma dinâmica em que palavra e gesto são indissociáveis – ao que consta, Berkoff sempre foi um fervoroso adepto do chamadoteatro físico.
E mesmo, como já dito, sem estabelecer qualquer comparação com a montagem anterior, nesta nova versão a profusão de gestos me pareceu excessiva, ainda que os mesmos sejam executados com precisão pelos atores. Após um certo tempo, senti necessidade de uma menor sofreguidão física, de ao menos alguns momentos que privilegiassem mais a palavra e menos o gestual (ainda que elaborado).

Seja como for, é inegável a beleza e sofisticação de muitas soluções cênicas, da mesma forma que incontestável o virtuosismo de Eron Cordeiro e Aline Fanju, tanto no que diz respeito à forma como articulam as palavras quanto aos gestos que executam. Cabe também ressaltar a grande capacidade de entrega de ambos e a óbvia cumplicidade que exibem, indispensável em um contexto que exige tanta precisão física e permanente sintonia mútua.

Na equipe técnica, Marcia Rubin reafirma (uma vez mais e sempre) seu enorme talento no que concerne à direção de movimento. Maria Adelaide Amaral e Leo Gilson Ribeiro respondem por impecável e fluente tradução. Dina Salen assina uma cenografia despojada que atende a todas as necessidades da montagem, sendo perfeitamente adequados os figurinos de Carol Lobato. Finalmente, Felipe Lourenço ilumina a cena com austera secura, certamente contribuindo para enfatizar os múltiplos conteúdos implícitos.

DECADÊNCIA – Texto de Steven Berkoff. Direção de Victor Garcia Peralta. Com Eron Cordeiro e Aline Fanju. Arena do Espaço Sesc. Quarta a sábado, 20h30. Domingo, 19h.

Deixe uma resposta