Logo que soube que a Cia Baiana de Patifaria apresentaria o espetáculo A BOFETADA aqui no RJ, no Vivo Rio, amanhã, dia 26 de maio, entrei em contato com o ator LELO FILHO pra divulgarmos seu trabalho aqui para nossos leitores.

Recebi seu material prontamente e já divulguei em outra oportunidade.

Pensei em fazer um Bate Papo com ele, mas quando li a entrevista abaixo, feita pela querida Luciana Leal para o seu site Da Minha Janela, com todas as perguntas que faria ao Lelo, não tive dúvidas, pedi a autorização pra reproduzi-la aqui, dando a ela todos os créditos e méritos…

Então é isso…

Vamos conhecer um pouco mais o LELO FILHO, um dos criadores da Cia Baiana de Patifaria, responsável pelo sucesso de várias montagens de humor, com textos inteligentes e politizados.

Da Bahia para o mundo, encenou na Broadway, em 1997, o musical “As Noviças Rebeldes”.

Amanhã (5ªf, dia 26/05) apresenta no Rio de Janeiro “A BOFETADA” e mostra, mais uma vez aos cariocas, Fanta Maria (uma das suas mais carismáticas personagens).

É com o ator, diretor, produtor e dramaturgo LELO FILHO que conversamos agora. Confira na íntegra:

 

Lelo, quando decidiu que queria viver da arte?

Lelo Filho: Desde pequeno ficava fascinado com atuações de alguns atores e atrizes das antigas telenovelas brasileiras. Um dia minha mãe nos levou ao Cine Roma para ver Meu Pé de Laranja Lima e fiquei tão deslumbrado com os cartazes dos filmes e a telona que me perdi dela dentro do cinema. Na escola comecei a me destacar atuando em pequenas peças e um dia, já com 19 anos de idade, decidi fazer o teste para o IV Curso Livre de Teatro do TCA. De 1982 pra cá, praticamente não parei mais. Em 1987 junto a um grupo de atores amigos criamos a Cia Baiana de Patifaria, uma trupe de teatro que está prestes a completar 30 anos nos palcos com 8 peças no repertório.

Quem é a sua principal referência quando se trata de humor?

São muitas referências e inspirações. Sempre fui fã de Chico Anysio, Paulo Gracindo, Marco Nanini, Berta Loran, Marília Pêra, Jack Lemmon, Peter Sellers, dentre muitos. São artistas que passeiam muito bem pelo humor, mas trazem algo dramático nas entrelinhas. Pra mim são artistas completos.

 Você acha que com a onda do “politicamente correto”, as produções de hoje estão menos ousadas?

O “politicamente correto” é limitador, é chato. O humor deve ter o cuidado para não constranger, não humilhar. Mas deve ser livre para rirmos de nós mesmos, que é o que fazemos. Não estamos acima de ninguém quando estamos em cena, embora alguns artistas se sintam assim. Não criamos piadas para rir de minorias, de quem já é constantemente abalado pela vida. Rimos e fazemos rir do geral, das situações que também estamos vivendo.

Como nasceu a Companhia Baiana de Patifaria?

Ator quer estar em cena. Eu e um grupo de amigos atores, incluindo aí Moacir Moreno, a quem conheci no Curso Livre de Teatro, estávamos desempregados no final de 1986. Era a chamada ‘era dos diretores’. Na verdade, cada diretor teatral tinha seu grupo e se você não estivesse incluído, dificilmente estava em cena. Junto com Moacir, decidimos inverter esse processo. E com esse grupo de amigos, improvisamos, escrevemos cenas, escolhemos outras e convidamos uma ‘canja’ com alguns dos melhores diretores teatrais daquele momento. Assim surgiu a Cia e a primeira peça ABAFABANCA, que estreou em junho de 1987, quebrando também alguns ‘tabus’ da vida teatral na época. Temporadas mais longas, a comédia como linha de trabalho (o teatro andava muito sério nos tempos da ditadura), inversão de papéis dentro e fora de cena e um esquema de divulgação que foi amadurecendo à medida que mudávamos de teatro na cidade. O espetáculo ficou mais de um ano em cartaz. Coisa inédita no teatro baiano.

“A Bofetada” é  um dos mais brilhantes espetáculos do teatro baiano. Qual é a importância de Fanta Maria na sua trajetória artística?

A cada montagem continuo aprendendo mais e mais sobre as várias nuances do meu ofício. Com o tempo consegui expandir o meu trabalho de ator, para o de diretor, produtor e dramaturgo. Por estar a tempo em cena, A Bofetada acaba sendo o espetáculo aonde mais aprendo, pois nele já dividi o palco com outros 16 atores que já passaram pela montagem. E em A Bofetada aconteceu o grande encontro meu com esse texto e esse personagem. Há quem diga que Fanta Maria ultrapassou o palco e invadiu a vida das pessoas. Dizem que é quase uma entidade. Pra mim representa um grande aprendizado sempre a cada contracena e muita alegria em fazer um personagem que é feliz. Claro que é uma criação minha, mas Fanta tem um humor que a mim contagia.

Como seu deu o processo criativo da personagem?

Lembro muito de como ensaiávamos numa sala do antigo Teatro Castro Alves. Ríamos muito durante o processo, mas por ser uma cena que precisa da plateia (o terceiro personagem), faltando 15 dias para a estreia, Fernando Guerreiro quis cortar o esquete. Eu e Frank insistimos muito que tentássemos e se não desse certo cortaríamos depois da estreia. E assim foi feito. Logo na primeira noite percebemos que a cena tinha uma força gigantesca com o público por torná-lo parte da brincadeira. A cena só crescia naquele primeiro verão entre 88/89. A Bofetada tem personagens incríveis, mas até hoje Fanta e Pandora é a cena que mais cria empatia. Fanta Maria é também fruto de um texto incrível e da liberdade que Fernando Guerreiro imprimiu para que pudéssemos criar.

Fanta tem vários bordões. Como eles foram criados?

Por mais que eu repita a cena, tenho necessidade de ir criando novidades e recriando o que já foi escrito pelos autores. Todos foram criados sem nenhuma pretensão de se transformarem necessariamente em bordões. Frases que fui usando e que ao serem repetidas acabavam causando um efeito hilariante na plateia. ‘É a minha cara’, o mais famoso de Fanta, nasceu de uma situação inusitada quando o público invadiu a Sala do Coro do TCA e muitos deles sentaram no palco. Naquela noite a sessão quase precisou ser cancelada, pois quase não havia lugar para as cenas. Numa negociação feita com o público, abrimos mais uma sessão e dividimos a quantidade de gente. Ainda assim ficaram alguns sentados no palco. Quando entrei em cena me chamou atenção um garoto moreno em contraste com o tecido laranja do cenário e Fanta Maria disse: “Pandora, olha que contraste! Um moreno e o laranjão atrás. Moreno no pano laranja é a minha cara!”, a reação foi tão grande que continuei repetindo a frase para outras coisas que ia dizendo e o bordão nasceu. Ainda tem o ‘hoje eu tou tão tão, que nem nem’, ‘evite contrariar o ser humano’ e ‘adoro, adoro, adoro’. Fanta é feliz, adora tudo.

São 28 anos de espetáculo. A intimidade com o personagem acalma “as borboletas no estômago” antes de entrar em cena?

Nunca quero perder essa sensação de ‘borboletas no estômago. Nunca sabemos que plateia iremos encontrar, portanto cada noite é inédita e essa sensação faz parte.

A peça já atravessou gerações, modismos, escândalos políticos e se renova a cada temporada. Como esses novos temas são inseridos no texto?

É um excelente exercício de renovação do texto e dos espetáculos que, pra nós, são verdadeiras obras abertas. Com o passar do tempo percebo o quanto tocamos em assuntos tão diversos como por exemplo: o custo e os escandalosos 15 anos para o metrô de Salvador andar, o mensalão, o petróleo, o beijo gay na novela das 9, a Operação Lava Jato, o impeachment de Collor e o mais recente ou mesmo um toque de recolher determinado por bandidos num bairro da cidade. São os assuntos que precisam ser refletidos pela plateia, que precisam ser levados pra fora do teatro na hora que eles sentam para comer uma pizza depois de nos assistir, no trabalho no dia seguinte ou no almoço de domingo com a família. As personagens, suas piadas, seus bordões e esses assuntos entram na vida das pessoas e de uma hora pra outra elas estarão falando sobre tudo isso. Dando opiniões, dividindo ideias. Isso é muito bom. A escolha dos temas é bem democrática. Cada ator sugere, aposta num novo assunto, vemos se funciona e decidimos quando ele ficou velho, ultrapassado.

Ao que você atribui o sucesso de A BOFETADA durante tanto tempo?

Ao fato de ser um produto de excelente qualidade. Mas vai além disso, A Bofetada continua se comunicando com diferentes faixas etárias e classes sociais. Suas temáticas são amplas e podem ser alteradas, isso faz com que a peça respire e cresça sempre se renovando. Os personagens criados ao longo do tempo por tantos talentos, ainda geram uma forte empatia com diferentes plateias em distintas partes desse imenso país.

Qual é a expectativa para mais uma apresentação no Rio de Janeiro?

No Rio estreamos a primeira vez em 1991 no Teatro Ipanema. De lá pra cá passamos ainda (com A Bofetada e Noviças Rebeldes) pelos teatros: Leblon, das Artes, dos Quatro, João Caetano, Villa Lobos e Carlos Gomes. Dessa vez será uma participação no Festival Teatro Regional e acontecerá dia 26 de maio no Vivo Rio. Fizemos o mesmo festival em fevereiro na etapa de São Paulo, no Tom Brasil. Os convites pra turnê não param.

Como foi, pra você, ser dirigido por Wolf Maia em “As Noviças Rebeldes”?

Temos muita sorte em ter trabalhado com grandes diretores como Luis Marfuz, Fernando Guerreiro, Fernanda Paquelet, Paulo Dourado, Hebe Alves e Rita Assemany. Com o fim da temporada da primeira versão de A Bofetada, em 1994, fomos convencidos pelo ator paulista Wilson de Santos que integrava a Cia, em correr atrás dos direitos do texto desse musical que Wolf havia montado anos antes com elenco feminino. Eu e Moacir Moreno descobrimos que Wolf ainda detinha os direitos da montagem da peça no Brasil e nosso sonho era fazer uma comédia musical. A resposta de Wolf foi: “Adorei vocês em A Bofetada que assisti aqui no Rio e não quero liberar os direitos. Quero dirigir a versão de Noviças com a Cia Baiana”. Claro que foi uma festa e assim foi feito. Ele dirigia a novela A Viagem na época e dividimos a criação do espetáculo em etapas. Definimos a equipe e Wolf veio e deu as coordenadas: “eles precisam cantar, sapatear e fazer balé clássico, quando estiverem prontos eu volto”. Wolf foi e voltou algumas vezes. Foram quase 5 meses de ensaios duros. E no meio do processo perdemos Moacir, um ator incrível a quem dedico cada montagem desde então. Em 1997 o autor americano Dan Goggin nos levou para NY.

Como foi a experiência de levar o espetáculo para a Broadway e quanto tempo ficaram em cartaz em NYC?

Cada nova experiência é sempre incrível. A de levar um musical produzido na Bahia para a terra dos grandes musicais foi algo muito maior que qualquer outro sonho que tenhamos tido. A produção começou em janeiro de 1997 para as 2 semanas de apresentações que só aconteceram em novembro daquele ano. Estreamos num teatro da Rua 46, a mesma onde estava em cena a versão musical de Titanic. Nas folgas assistimos outros espetáculos e aproveitamos cada dia. Eu como produtor tive uma equipe sensacional para cuidar de cada detalhe desde os vistos de trabalho ao aluguel e montagem de equipamentos de luz e som, bem como da divulgação.

Quais foram os maiores desafios enfrentados, ao logo da sua trajetória, para conseguir se manter ativo no cenário cultural baiano?

São inúmeros. A maioria dos empresários desconhece as leis de incentivo à cultura. Em tempos de crise há uma retração no mercado e a área da cultura é a mais afetada. Gerentes de Marketing às vezes são um grande empecilho, pois muitas vezes não deixam seu projeto chegar às mãos do dono da empresa, que talvez deseje estar na parceria com o espetáculo. Com o retrocesso que significa a junção dos Ministérios da Cultura e Educação no atual governo, nem posso imaginar o quanto ainda teremos que sofrer pra continuar em cena.

Quais são as facilidades e dificuldades de ocupar as posições de ator, produtor, diretor e dramaturgo?

Antes do Curso Livre de Teatro do TCA aonde comecei em 1982, eu conheci muita gente de teatro na faculdade de Ciências Sociais. Passei a frequentar a plateia e os bastidores de tal forma que um dia faltou o iluminador e eu o substituí, na outra semana o sonoplasta não apareceu e lá estava eu pra acudir a produção. Não consigo não tentar entender de cada aspecto de uma montagem. Hoje entendo que caminhei pra abraçar as outras funções que me caíram no colo e amo o que faço. Meu senso crítico é feroz, portanto, estou em cena, mas sei se estou bem ou não, se o refletor acendeu ou queimou, se o figurino do ator com quem divido a cena está em bom estado ou não, se o cenário está torto. Fui desenvolvendo isso aos poucos. Só peço que os problemas que tenha que lidar sejam estritamente os que me cabem ali, naquela tarefa. Que problemas externos não interfiram no que nos dedicamos a fazer no teatro. Me dedico a cada função, mas estou cercado de uma equipe muito bacana pra que isso dê certo.

Você é uma pessoa politizada e que nunca teve receio de expor suas opiniões acerca do assunto. Acredita ser essa uma das responsabilidades do artista?

O que vem a seguir é o texto que escrevi para o programa de A Bofetada que entregamos ao público a cada noite nessa nova montagem. Acho que responde bem essa pergunta: Ao escrever esse texto pensei em duas frases. A primeira, da cantora e ativista Nina Simone, que guia todo meu trabalho: “Como você pode ser um artista e não refletir o momento em que vive?”. A segunda, atribuída a Chaplin, resume o humor que, há quase 30 anos, faço nessa trupe: “O humor pode ser tudo, até mesmo engraçado”. Essa eu ouvi de Chico Anysio (um mestre!) e há pouco tempo foi reprisada por um fã de A Bofetada ao comentar que Fanta Maria, personagem que amo fazer – em meio a toda comicidade da cena – falou sobre o absurdo da polícia paulista ter espancado estudantes que defendiam melhorias no ensino, durante a ocupação de escolas por lá. Graça não havia, mas precisava ser dito. E alguém percebeu. Desde que estreou em 1988, Fanta já convocava a plateia para passeatas contra os problemas do ensino nesse país, mas sempre acabando os protestos em alguma festa da cidade, claro! Há quem veja em A BOFETADA somente a alegria – e isso é muito bom. Melhor ainda é perceber a soma do que vem nas entrelinhas. Nada como rir de si mesmo. É como rebobinar. E seguir em frente.

Como você lida com as críticas?

Há críticas e há simplesmente opiniões. Coisas bem distintas. Crítica é uma coisa positiva, ela vem embasada pelo conhecimento e não meramente pelo gosto/não gosto que geralmente domina a ‘opinião’. Eu sou um excelente crítico de mim mesmo. E por essa razão recebo sempre muito bem. Mesmo que  a crítica não seja exatamente o que esperava ou gostaria. Nesse caso ela contribui para melhorar.

Como avalia o papel social e político da arte nos dias atuais?

Não dissocio uma coisa da outra. Elas estão juntas em mim e no meu trabalho. E claro, no da Cia.

O que viabiliza hoje a permanência de uma peça em cartaz?

Artistas da cidade vivem do que sua bilheteria gera ou têm que ter mais de um, dois, três trabalhos. O que nos tira tempo de aperfeiçoar mais e mais o que fazemos. Seria bom que pudéssemos ter tempo para oficinas, cursos. Portanto, além do público, o que mantêm peças em cartaz são as parcerias feitas pela produção para que os custos diminuam.

Qual é a sua opinião sobre o stand up?

Não tenho nada contra. Há lugares no mundo aonde esse gênero não é apresentado em teatros, somente em bares e cabarés. Sinceramente acho que existem alguns poucos artistas muito bons. Não enxergo personagens. Vejo sempre como alguém contando casos. Quando se é bom contador de história aí não tem erro. É sucesso na certa. Acho também um gênero já desgastado.

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