Afetos e descontroles

As palavras e as coisas  A história parte das lembranças de momentos vividos entre três amigos - Foto: Divulgação

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Duas mulheres se reencontram na sala de espera de uma UTI. Dentro desta, um homem (Matéi) agoniza, vítima de um acidente de carro logo após a noite de autógrafos de seu último romance, “Macau”. Ao longo da narrativa, realidade e fantasia se alternam, e somos levados a crer que as duas mulheres são personagens do romance e a relação de ambas com o homem constitui a matéria essencial do livro. Finalmente, um curioso detalhe: sempre que vivenciam algo de grande intensidade emocional, as mulheres vomitam objetos.

Eis, em resumo, o contexto em que se dá “As palavras e as coisas”, em cartaz no Espaço Cultural Sergio Porto. Pedro Brício responde pelo texto e pela direção do espetáculo, estando o elenco formado por Branca Messina, Lúcia Bronstein, Gabriel Pardal e Daniela Kupek.

Não sei se Pedro Brício titulou sua peça reportando-a a “As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas”, de Michel Foucault. Mas suponhamos que sim. Então, o que teriam a ver uma com a outra? Vamos a um resumo sumaríssimo, quase constrangedor, do ensaio do filósofo francês.

No ano em que o publicou (1966), Foucault estava numa fase dita arqueológica, na qual empreendia uma espécie de arqueologia das ciências humanas, com o objetivo de refutar uma visão linear e progressiva da História. Se aplicada ao teatro, tal refutação pode ser entendida como uma rejeição a narrativas que se estabelecem através da cronologia dos fatos, sem qualquer espécie de ruptura temporal, e cuja linearidade excluiria a possibilidade de existirem múltiplas camadas de apreensão. Mas em se tratando da dramaturgia contemporânea, isto não constitui nenhuma novidade.

Assim sendo, restaria a possibilidade de Brício ter priorizado a constatação feita por Foucault – e não apenas por ele, evidentemente – de que na Idade Média as palavras e as coisas eram equivalentes, não havia distinção entre elas. A palavra “cavalo” designava um cavalo, e nada além disso. E se um quadro exibia um vaso de flores, seu título seria “Flores”. Ou seja: esse tipo de relação com o objeto excluía o sujeito e sua singularidade, impedindo-o, por exemplo, de se ver tomado por profunda angústia diante de uma tela que reproduzisse um objeto ou uma cena cotidiana perfeitamente reconhecíveis.

Já me desculpando por esta divagação um tanto extensa e nem sei se pertinente, voltemos ao texto de Brício. Aqui, como já dito, as personagens eventualmente vomitam objetos. É claro que isto não pode ser entendido como uma manifestação real. Mas em que sentido deve ser entendida? Trata-se apenas de um efeito visando curioso e hilário estranhamento? Isso seria gratuito. Mas será que as coisas vomitadas possuem um significado inerente às personalidades em questão? Ou estaria o autor sugerindo que todos nós, ainda que de forma inconsciente, vivemos vomitando coisas sempre que as palavras se revelam impotentes perante a vida? Na dúvida, fico com esta última hipótese.

Mas ainda que o texto em questão tenha me suscitado mais dúvidas do que certezas – o que não é mau, evidentemente – acredito que “As palavras e as coisas” talvez possa ser entendida como uma peça que fala basicamente de afetos e descontroles, sendo ambos indissociáveis. E este conteúdo essencial vem expresso através de uma narrativa que prende a atenção do espectador ao longo de todo o espetáculo, tanto através de suas surpreendentes peripécias como pelo permanente embate entre as personalidades retratadas.

Com relação ao espetáculo, Pedro Brício impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, apostando visceralmente tanto no estranhamento como no humor, sem se descuidar das passagens em que os múltiplos e contraditórios afetos são trabalhados com a seriedade que merecem. E se a isto somarmos o bom desempenho de todo o elenco, não resta dúvida de que aos espectadores está sendo oferecido um produto capaz de divertir e gerar reflexões.

Na equipe técnica, Tomás Ribas ilumina a cena com a habitual sensibilidade, sendo muito expressiva a cenografia de Tuca. Cabe também destacar a instigante trilha sonora de Joana Guimarães e Pedro Brício. Com relação aos ótimos figurinos, estes foram supervisionados pelo sempre competente Antônio Guedes.

AS PALAVRAS E AS COISAS – Texto e direção de Pedro Brício. Com Branca Messina, Lúcia Bronstein, Gabriel Pardal e Daniela Kupek. Espaço Cultural Sergio Porto. Sábado e segunda, 21h. Domingo, 20h.

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