A vida passou por aqui

Montagem imperdível no Café Pequeno

“A peça conta a história de uma profunda amizade entre uma mulher e um homem de estratos sociais diferentes. Silvia, professora e artista plástica, viveu grande parte de sua vida às voltas com as crises em seu casamento. Floriano, contínuo, inteligente e de hábitos simples, sempre levou a vida com leveza e bom humor. Quando se inicia a ação, Silvia é uma mulher solitária que se recupera de um AVC e Floriano é o único amigo presente. Aos poucos, graças a seu bom humor e alegria, ele contagia Silvia a ponto de fazê-la recuperar os movimentos. E juntos se divertem e comemoram os altos e baixos de quase 50 anos de amizade”.

Extraído (e levemente editado) do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o enredo de “A vida passou por aqui”, de autoria de Claudia Mauro, em cartaz no Teatro Café Pequeno. Alice Borges assina a direção do espetáculo, tendo Marcos Ácher como diretor assistente. No elenco, Claudia Mauro e Édio Nunes.

Como se sabe, muitos textos já foram escritos abordando a amizade e, mais especificamente, a amizade entre um homem e uma mulher. Mas este me parece especial, não tanto porque envolve pessoas pertencentes a estratos sociais diferentes, mas sobretudo porque enfatiza o poder que a alegria possui de promover verdadeiros milagres.

Sem entrar em maiores detalhes sobre o enredo, pois isso privaria o espectador de deliciosas surpresas, ao longo da peça constatamos que Silvia pertence àquele grupo de pessoas que tende a reagir de forma drástica aos percalços da vida, independentemente de sua maior ou menor gravidade. Já Floriano adota uma postura inversa, pois apesar de também sofrer eventuais percalços, não os encara
como determinantes do seu futuro, talvez pela consciência que possui de que é impossível levar um barco sem temporais. Enquanto Silvia acredita estar sempre à beira de um naufrágio, Floriano aposta no caráter efêmero do vento.

Sob todos os aspectos, “A vida passou por aqui” é um texto de primeiríssima qualidade. Valendo-se de ótimos diálogos e de personagens maravilhosamente estruturados, Claudia Mauro aborda, sempre com humor e delicadeza, não apenas a amizade entre um homem e uma mulher, mas também questões referentes à velhice, à relação com os filhos, aos sonhos que acalentamos e nem sempre materializamos, dentre outros temas. E, em última instância, parece nos sugerir que, se eventualmente lágrimas são inevitáveis, ainda assim elas devem ser encaradas como prenúncio de muitos risos.

Com relação ao espetáculo, a excelente atriz Alice Borges realizou um trabalho primoroso, tanto pela dinâmica que impõe à cena – marcações expressivas, notável precisão rítmica – quanto por sua atuação junto ao elenco. Sem nenhum temor de estar equivocado, não hesito em afirmar que Claudia Mauro e Édio Nunes exibem as melhores performances de suas carreiras.

Ambos com aplaudidas atuações mais voltadas para o humor, aqui os intérpretes mergulham profundamente em um universo em que só eventualmente a exuberância se materializa – isto ocorre nas passagens em que dançam, humilhando impiedosamente os mortais que os assistem. Mas na maior parte da peça, o que prevalece são gestos delicados, vozes que articulam o texto sem apelar para desnecessárias ênfases, o que nos permite absorver os múltiplos conteúdos com uma serena sensação de cumplicidade. A ambos, portanto, agradeço a maravilhosa noite que me proporcionaram, e desejo que muitos possam ter o privilégio de usufruir emoções semelhantes às que senti na noite de ontem.

Com relação à equipe técnica,  considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível empreitada teatral – Nello Marrese (cenografia), Ana Roque (figurinos), Paulo César Medeiros (iluminação), Claudio Lins e Patricia Mauro (trilha sonora), Larissa Bracher (coach), Paula Águas (supervisão de movimento), Édio Nunes (coreografias) e Renata Paschoal, que cada vez mais se firma como uma das melhores profissionais de produção do teatro carioca.

A VIDA PASSOU POR AQUI – Texto de Claudia Mauro. Direção de Alice Borges. Com Claudia Mauro e Édio Nunes. Teatro Café Pequeno. Sexta a domingo, 20h.

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