Poderosa metáfora no Oi Futuro

João Velho, Gillray Coutinho e José Loreto numa cena do espetáculo - Foto: Divulgação

João Velho, Gillray Coutinho e José Loreto numa cena do espetáculo – Foto: Divulgação

As raças diferem, assim como os instintos, mas os três cães têm em comum o mesmo objetivo: ganhar a coleira branca, ambicionado prêmio para aquele que se revelar mais apto para combater o terrorismo. Um dos cães (Emanuel) revela propensões filosóficas, outro (Odin) exibe singular cinismo e o terceiro (John-John) é a perfeita materialização da força bruta. Há um quarto cão, paralítico, que coordena as provas e a quem cabe julgar o desempenho dos demais. Finalmente, um único homem, cuja função básica consiste em conduzir os cães para um outro espaço, onde se realizam a maioria dos testes.

Eis, em resumo, o contexto em que se dá “A paz perpétua”, de autoria do espanhol Juan Mayorga, em cartaz no Oi Futuro Flamengo. Aderbal Freire-Filho assina a tradução e a direção do espetáculo, estando o elenco formado por Alex Nader, Gillray Coutinho, João Velho, José Loreto e Kadú Garcia.

Diante do exposto no parágrafo inicial, muitas interpretações podem ser feitas capazes de legitimar personagens híbridos, mescla de cães e homens. Haveria alguma humanidade nos primeiros, adquirida pelo convívio com os humanos? Os homens teriam se brutalizado a ponto de jamais conseguirem se libertar de sua selvagem origem? Ou será que Juan Mayorga, ao criar uma circunstância cênica plena de estranhamento, objetivou que ela fosse entendida como metáfora de um mundo em irreversível processo de esfacelamento ético e moral?Sinceramente, não cheguei a uma conclusão definitiva a respeito das intenções do autor, ainda que tenha feito muitas outras conjecturas além das expostas.

Seja como for, o que importa é que estamos diante de um texto que aborda relevantes questões, sendo as mais significativas – ao menos para mim – a eliminação do outro como condição imprescindível para o triunfo pessoal, a perplexidade diante de tarefas incompreensíveis que ainda assim precisam ser cumpridas e a existência ou não de Deus, aqui discutido à luz de Pascal. E tais questões nos chegam através de excelentes diálogos e de personagens maravilhosamente construídos, predicados que contribuem de forma decisiva para manter a plateia em permanente estado de tensão e interesse.

Mas é claro que o êxito da presente empreitada também deve ser creditado a todos os profissionais nela envolvidos. A começar por Aderbal Freire-Filho. Além de assinar ótima tradução, Aderbal impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o contexto – marcações expressivas, precisão rítmica e sensível valorização de todos os conteúdos emocionais, políticos e filosóficos em jogo. Afora reiterar, uma vez mais, sua enorme capacidade de extrair excelentes atuações dos atores que dirige.

Neste particular, por sinal, gostaria de dizer o seguinte: é muito raro se assistir a um espetáculo em que todos os intérpretes, além de extraírem o máximo de seus personagens, também exibem uma contracena tão forte e visceral. Assim, parabenizo com o mesmo entusiasmo Alex Nader (cão paralítico), Gillray Coutinho (Homem), João Velho (Odin), José Loreto (John-John) e Kadú Garcia (Emanuel) e a todos agradeço a emocionante noite que me proporcionaram.

Na equipe técnica, considero irrepreensíveis as contribuições de todos os profissionais envolvidos nesta instigante empreitada teatral – Maneco Quinderé (iluminação), Aderbal Freire-Filho (cenografia), Tato Taborda (música) e Antônio Medeiros (figurino).

A PAZ PERPÉTUA – Texto de Juan Mayorga. Tradução e direção de Aderbal Freire-Filho. Com Alex Nader, Gillray Coutinho, João Velho, José Loreto e Kadú Garcia. Teatro Oi Futuro. Quinta a domingo, 20h.

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