Dolorosa trajetória em busca da lucidez

“Juliana Smithton, uma neurologista de sucesso, tem um lapso de memória na apresentação para uma plateia de médicos de um novo remédio desenvolvido por ela. A partir deste episódio ela vai sendo impulsionada a rastrear sua lucidez. Este rastreamento é feito através de embates com seu marido, com sua médica, com as lembranças de sua filha desaparecida e consigo mesma. No decorrer da trama, o espectador vai sendo levado, junto com a protagonista, à compreensão do que de fato está ocorrendo. Ele é convidado a montar o quebra-cabeça, acompanhando a trajetória de aceitação e transformação de Juliana ao relembrar e assimilar os acontecimentos de seu passado”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima resume o enredo de “A outra casa”, de autoria do norte-americano Sharr White. Em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal, a montagem leva a assinatura de Manoel Prazeres, estando o elenco formado por Helena Varvaki, Alexandre Dantas, Gabriela Munhoz e Daniel Orlean.

Incontáveis tratados já foram escritos objetivando definir a loucura. Alguns especialistas sustentam que em sua origem estaria uma razão puramente física, ao passo que outros defendem que o meio-ambiente seria o responsável pela anomalia. Um terceiro grupo acredita na mescla dos dois fatores. Isto significa que jamais se chegou a uma conclusão definitiva, o que não deixa de ser positivo porque oferece a possibilidade de outras variantes.

No presente caso, estamos diante de uma mulher que, durante a mencionada palestra, tem uma curiosa visão: uma jovem vestida apenas com um biquíni amarelo, traje completamente inadequado para a ocasião. Inicialmente, ela supõe tratar-se de uma prostituta, mas aos poucos muda de opinião. Quem seria essa jovem?

Com o desenrolar da trama, estruturada de forma fragmentada, várias pistas são fornecidas sobre o que de fato está acontecendo com a renomada neurologista, mas tais pistas não serão aqui explicitadas pois isso privaria o espectador de ir progressivamente se envolvendo com a dolorosa desagregação mental de Juliana. No entanto, cumpre ressaltar a beleza e profundidade do texto, a notável forma como o autor expõe não apenas o desespero de quem padece de uma doença mental, mas também o imenso sofrimento das pessoas mais próximas.

Com relação ao espetáculo, Manoel Prazeres impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, cabendo destacar a precisão dos tempos rítmicos e sobretudo uma proposta que me pareceu extremamente original e pertinente – em grande parte das marcações, os personagens trocam constantemente de posição quando um deles se aproxima do outro, como a sugerir que, permanecendo frente à frente, fatalmente uma verdade indesejada haveria de ser revelada. Afora isso, Manoel Prazeres exibe o mérito suplementar de haver extraído ótimas atuações do elenco.

Na pele de Juliana, Helena Varvaki demonstra, uma vez mais, seus maravilhosos dotes de intérprete. Possuidora de ótima voz, excepcional expressividade corporal, forte carisma e uma inteligência cênica que lhe permite trazer à tona todos os conteúdos em jogo sem lançar mão de soluções previsíveis, a atriz exibe aqui um de seus melhores trabalhos de intérprete e, sem a menor dúvida, uma das performances mais contundentes da atual temporada.

Alexandre Dantas também está impecável vivendo o marido, provocando forte emoção na plateia tanto por sua abnegação como pelos eventuais momentos de desespero, quando o personagem parece já não saber mais que caminhos trilhar para ajudar a mulher que tanto ama. A mesma eficiência se faz presente na performance de Gabriela Munhoz, cujo principal mérito reside no fato de interpretar várias personagens a elas impondo características sempre diversas e totalmente verossímeis. Em papel curtíssimo, Daniel Orlean tem participação correta.

Na equipe técnica, Doris Rollemberg assina uma cenografia abstrata, que em alguns momentos sugere a exposição de chapas radiográficas – estas, no entanto, e sabiamente, não apontam a existência de nenhum mal concreto. Letícia Ponzi responde por figurinos em total sintonia com o contexto e com as personalidades retratadas, sendo igualmente de ótimo nível a claustrofóbica e angustiante iluminação de Renato Machado, mesmos predicados da trilha sonora de Rick Yates. Cumpre também destacar a excelente tradução de Diego Teza e as preciosas contribuições de Renaud Leenhardt e Rodrigo Turazzi (captação de imagens), com este último também responsável pela edição de vídeo.

A OUTRA CASA – Texto de Sharr White. Direção de Manoel Prazeres. Com Helena Varvaki, Alexandre Dantas, Gabriela Munhoz e Daniel Orlean. Centro Cultural Justiça Federal. Sexta a domingo, 19h.

Deixe uma resposta