Sabrina, uma fada verde, entra voando no quarto de um pré-adolescente, pela janela. Olha pra tudo quanto é lado empolgada. Fica mais feliz ainda quando vê Rodrigo deitado na cama. A fada senta sensualmente em cima da televisão.

RODRIGO: (falso)Uma fada verde, que bom te ver por aqui. Nós estamos em 1962 você tem ideia de quanto significa ter uma televisão? Será que dá pra você sentar em outro lugar que não seja a minha televisão.

SABRINA: Dá. Sempre dá. (a fada senta numa bola e cai)

RODRIGO: Nem sempre.

SABRINA: Sempre dá. (a fada se apóia de perna aberta)

RODRIGO: Olha só dona fada, se você é a fada do dente, fique sabendo que eu já tenho todos os dentes definitivos e eu já tenho 14 anos. Você chegou tarde.

SABRINA: Eu não sou a fada do dente.

RODRIGO: Não? E que fada você é?

SABRINA: Meu nome é Sabrina, eu sou a fada da Terra do Sempre e vim aqui te ajudar.

RODRIGO: Me ajudar? Eu não pedi ajuda pra ninguém.

SABRINA: As fadas da Terra do Sempre sempre ajudam os meninos com a primeira noite.

RODRIGO: Primeira noite?

SABRINA: É. Eu ouvi dizer que você nunca teve namorada, e que todos os seus amigos já fizeram sexo e você não.

RODRIGO: Quem disse isso pra você?

SABRINA: Lá de onde eu venho, a gente sempre sabe das coisas. Ouvi dizer também que você perdeu a eleição pra representante de turma. Vem cá, vem.

RODRIGO: Que estranho, nunca ouvi falar sobre você.

SABRINA: É claro, os meninos sempre mentem. Dizem que transaram com a menina mais bonita do colégio, mas na verdade só transaram com a fada da Terra do Sempre.

RODRIGO: Sei, e você veio aqui só pra me dar?

SABRINA: Sempre.

RODRIGO: Dona fada, eu estou mais preocupado em crescer e me tornar um homem importante pra nossa história, trabalhar por um mundo melhor, sem injustiças sociais. Eu quero que o povo tenha o que comer.

SABRINA: Os homens sempre mentem.

RODRIGO: E vocês mulheres sempre acham que a gente mente.

SABRINA: Como você sabe disso? Você é um pirralho.

RODRIGO: Meu pai me disse…Você sempre vem aqui pra dar? Pra todo mundo?

SABRINA: Sempre.

RODRIGO: Safada!

SABRINA: A primeira vez é sempre estranha, alguns acham nojento mesmo. Mulher é sempre melada. Mas você vai gostar. (fada tira a roupa)

RODRIGO: Melada e verde? Que nojo.

SABRINA: (se senta no colo de Rodrigo) Você pode me comer, sou sempre sua.

RODRIGO: Comer alguém verde é como comer alface…

SABRINA: Me come vai…

RODRIGO: Eu sempre catei todos os verdes do meu prato, desde pequeninho…

SABRINA: Você acha que eu sou muito verde?

RODRIGO: Desculpa aí dona fada, você é verde demais.

PAUSA

SABRINA: Apaga a luz.

RODRIGO: Tá bom vou tentar. (Rodrigo apaga a luz)

SABRINA EM OFF: Você não vai me comer? E você acha que você tem escolha? Você é um fedelho de 14 anos, quem vai querer dar pra você? Meninas gostam de meninos mais velhos, e ainda tem que ser popular ou ter o pau grande.

RODRIGO: Ou ser rico.

SABRINA: É que eu sou muito romântica.

50 anos depois. Acende-se a luz. Sabrina (igual á 50 anos atrás) entra voando no quarto de Rodrigo pela janela. Olha pra tudo quanto é lado nada empolgada. Fica infeliz quando vê Rodrigo (velho barrigudo e acabado) deitado na cama. A fada de saco cheio, senta em cima da televisão.

RODRIGO: (animadíssimo) Fada verde! Você por aqui. (a televisão cai) Que boa surpresa.

SABRINA: Sabrina, meu nome é Sabrina.

RODRIGO: Oi, Sabrina. Já sei, você ouviu dizer que eu estou divorciado, desempregado, sem grana, que perdi as eleições pra vereador e veio me ajudar.

SABRINA: Nem sempre.

RODRIGO: Olha, faz tanto tempo que eu não como uma mulher, você chegou em boa hora. Minha cama está te esperando. E você está igualzinha, as fadas ficam jovens pra sempre?

SABRINA: Nem sempre. Olha, eu vim aqui pra dizer que nem sempre as mulheres preferem os mais velhos. Que nem sempre mulher é melada e nem sempre você vai gostar.

RODRIGO: Eu vou gostar sim.

SABRINA: Não vai não. E nem sempre meninas gostam de meninos mais velhos, principalmente se forem divorciados, desempregados, sem grana e que ainda conseguem perder uma mísera eleição pra vereador.

RODRIGO: (puto) Eu sei fada. Já sei disso tudo, todo mundo sabe disso. Você não veio me dar?

SABRINA: Não.

RODRIGO: (muito puto) Me perdoa, Sabrina. Eu me arrependi de não ter te comido. Você sabia que depois daquela noite eu passei a comer alface?

SABRINA: Você sabia que depois daquela noite eu passei a dar pra homem rico?

RODRIGO: (mais puto ainda) E você veio fazer o quê aqui então?

SABRINA: (dana a falar alterada) Vocês do planeta Terra, são sempre idiotas. Crescem catando o verde do prato… Catando as pessoas verdes da vida…Vocês não querem o bem nem do vizinho. E ainda fazem discurso sobre o povo. Vocês homens querem mulheres, que não sejam muito verdes e só. Escuta aqui, o universo não gira em torno de vocês não. E o sol é só uma estrelinha… Pluft Platft Pum.

RODRIGO: O que foi isso?

SABRINA: Uma mágica. Uma outra coisa que provavelmente não te contaram, é que nós fadas verdes da Terra do Sempre somos responsáveis por vários mistérios masculinos. Eu vim aqui pra te deixar brocha.

Rodrigo desespera-se e enforca a fada.

RODRIGO: Eu não acredito em fadas.

Sabrina morre. Rodrigo se ajeita, olha os dentes no espelho, olha os poucos músculos do braços e faz flexões.

FIM.

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